A Curva na Estrada

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A Curva da Estrada: psicologia social e conflito interior

por José Fernando Tavares

(Director da Revista Artes e Artes)

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O romance que Ferreira de Castro publicou em 1947, a que deu o título significativo de A Curva da Estrada, representa, no contexto da obra do autor, aquela que podemos considerar a sua época de maturidade. Não apenas maturidade estilística mas também um tipo de maturidade que já lhe permite perspectivar de uma forma diferente a própria dimensão do humano. De facto, enquanto que em romances como Emigrantes (1928) ou A Selva (1930), livros maiores na sua obra, o humano é encarado na sua dimensão mais miserabilista, pois trata-se de um tipo de homem circunscrito a uma época específica do processo histórico que enfrenta apenas a sua condição de ser sobrevivente, a problemática apresentada em A Curva da Estrada já em muito se distancia das questões da sobrevivência para centrar-se sobretudo nas questões de ordem ética e ideológica. Mais do que isso: centra-se também em aspectos marcadamente psicológicos, característica que irá afastar, de um modo definitivo, a obra da Ferreira da Castro da corrente literária dominante no seu tempo conhecida por neo-realismo.

Existe uma diferença fundamental entre o movimento neo-realista e a obra de Ferreira de Castro. Essa diferença reside no foco narrativo, ou seja, na própria matéria novelística. Enquanto a generalidade das obras produzidas pelo neo-realismo centrava a sua problemática numa personagem colectiva, pois os romances produzidos pelo neo-realismo tinham em vista um objectivo social, Ferreira de Castro preocupa-se com a condição do indivíduo isolado, conferindo, desse modo, às suas narrativas uma dimensão psicologista. É o que acontece com Manuel da Bouça de Os Emigrantes ou com Alberto de A Selva. Ambas as narrativas partem de um pressuposto autobiográfico, aspecto legítimo na obra de um autor, visto que a experiência vivida é uma característica indissociável de toda a obra literária.

Não sabemos se Don Álvaro Soriano, a personagem em que centrou a problemática de A Curva da Estrada, parte de um pressuposto autobiográfico, mas esse aspecto é, neste livro, irrelevante, porquanto Álvaro Soriano possui uma característica que o distingue da maioria dos outros "anti-heróis" de Ferreira de Castro. Essa característica é, justamente, a sua universalidade.

Reside aqui um dos aspectos mais positivos da obra de arte literária: quanto maior for o seu carácter universal, maior será também a sua intemporalidade. Esta relação da obra com o tempo, faz dela o testemunho vivo de um momento específico do processo histórico. A acção de A Curva da Estrada passa-se em Espanha, numa conjuntura política que supomos ser pós-revolucionária, embora o autor tivesse o propósito de não tornar política a sua narrativa. O narrador de Ferreira de Castro furta-se sempre a pronunciar o nome do chefe do governo espanhol, limitando-se apenas a referir o confronto entre os partidos socialista e nacional, pois será a partir deste confronto que irá surgir a grande dúvida moral de Álvaro Soriano.

 

O problema apresentado em A Curva da Estrada

 

Embora a acção deste livro decorra num contexto histórico não nacional, talvez por o autor entender que o país vizinho apresentava características psicológicas mais propícias para a abordagem do problema, a matéria que é apresentada ao leitor denota aspectos peculiares à literatura portuguesa coeva. Sem dúvida que o homem, pela sua fragilidade e pela sua contingência, sempre foi uma entidade determinante em qualquer problemática literária. Porém, se lançarmos um olhar à literatura portuguesa produzida nas primeiras décadas deste século, verificamos que as preocupações em torno do homem se centram mais em aspectos de carácter económico, em aspectos referentes a uma situação específica da sobrevivência, seja a nível das condições do trabalho, seja a nível da relação com a saúde ou com a doença, seja, mesmo, com aspectos de ordem prática enaltecidos por um lirismo mais prosaico do que poético (e referimo-nos, sobretudo, à criação ficcional), aspectos sem dúvida motivados por uma situação política castradora e punitiva. O nosso lirismo intrínseco, enraizado também na própria matéria novelística, fez desviar o possível caminho da nossa criação ficcional para uma posição de carácter menos filosófico; ou seja, a literatura portuguesa tem-se preocupado mais com as questões do folclore e do colorido, do que com as questões referentes a uma metafísica do humano. A própria relação com Deus e com o sagrado é resolvida pela narrativa de um modo passivo, sem angústia ou inquietação, circunstância que não nos deixa grandes margens para um qualquer aspecto da metafísica. Por outro lado, a tradição académica portuguesa, arraigada a uma filologismo quase despótico, sempre nos fez crer que não pode existir qualquer tipo de relação entre a problemática literária e a problemática filosófica*. Para o academismo, a questão da metafísica jamais poderá ser relevante num país cuja população fora sempre predominantemente rural e que tem sido a protagonista por excelência da matéria literária. Esse ruralismo é também visível na maioria dos restantes romances de Ferreira de Castro, apesar da sua tendência urbana, visível em livros como A Tempestade (1940) ou no livro de que agora nos ocupamos. Porém, mesmo em autores que centraram a sua ficção no espaço citadino, como aconteceu com Joaquim Paço D'Arcos ou Fernando namora, sobreleva o aspecto telúrico e, quantas vezes, ruralizante.

O exemplo de Ferreira de Castro não será, apesar do seu contributo, muito relevante para a questão da metafísica, embora o romance A Curva da Estrada apresente já, como dissemos, uma preocupação diferente da dos romances anteriores. É-nos difícil imaginar que um autor como Ferreira de Castro tivesse passado ao lado da irrupção existencialista que se deu na Europa no auge da sua carreira, que aconteceu aquando da publicação de A Selva em 1930. Embora a problemática existencialista muito escassamente se tivesse pronunciado entre nós (a não ser em autores isolados como em José Régio, que publica o Jogo da Cabra Cega em 1934, ou em Fernando Pessoa, na época ainda quase absolutamente inédito), o aparecimento de A Curva da Estrada é já um sintoma, embora débil, dessa viragem gradual da literatura para as questões filosóficas. Isso aconteceu, por exemplo paradigmático, com Vergílio Ferreira, que, apesar das suas primícias neo-realistas, cedo se determinou pelo caminho da problemática do homem. Esta consciência, porém, só iria dar-se em 1949, com a publicação do romance intitulado Mudança.

Se partirmos do pressuposto de que a linguagem determina a essência do Ser, devemos entender a arte literária como um fenómeno, não apenas do domínio da criação, mas também do domínio especulativo e racional. Não basta, na verdade, contar uma história; é necessário que essa história aumente a substância do humano de modo a que possamos considerá-la válida na própria história literária. É certo que há livros que se tornam datados pelo simples facto de não acompanharem, nem o tempo, nem o próprio processo histórico, aspectos indissociáveis de um humanismo que se recusa à estagnação. A circunscrição de uma obra ao tempo que a viu nascer é, muitas vezes, um mal necessário, sobretudo se essa obra possuir qualquer característica panfletária. Esse foi um dos defeitos (senão o principal) da literatura dita neo-realista. Podemos medir a perenidade de um livro se nele encontrarmos uma substância humana que se reconhece, a priori, intemporal. Embora a mudança seja uma característica do homem, há aspectos da condição humana que se repetem indefinidamente, como se todos nós obedecêssemos às regras de um jogo previamente estabelecido e do qual não podemos fugir. Trata-se, na verdade, de um jogo cósmico a partir do qual se determinam os ciclos históricos, de pequena ou de longa duração.

O romance de Ferreira de Castro, centra-se, de facto, numa questão de carácter existencial. Don Álvaro Soriano é um velho deputado da oposição que está prestes a abandonar o seu partido para se filiar no partido do Governo. Esta metamorfose, acompanhada de uma dúvida fundamental, constitui o problema central de A Curva da Estrada. O próprio título do romance, simultaneamente uma metáfora e uma imagem, remete o leitor para uma questão que se tornou fundamental nas chamadas "filosofias da existência". Essa questão reporta-se ao caminho que cada homem persegue ao longo de uma vida cheia e inteira. Podemos utilizar aqui uma metáfora cara ao próprio existencialismo, proposta por Kierkgaard, que compara a existência a um labirinto e não a uma estrada rectilínea, conforme certos ideais nos levam a acreditar. A consciência da

dificuldade é assumida com desencanto, mas há uma evidência a que nenhum homem pode fugir: essa evidência acontece quando se dá a queda definitiva no abismo. É uma queda de tal forma violenta que já não é possível voltar atrás para remediá-la. Esse tem sido um dos pressupostos da condição humana.

Podemos estabelecer uma correspondência entre a personagem central deste romance, Don Álvaro Soriano, e a figura bíblica do Anjo caído. De facto, perante a opinião pública e perante a colectividade, Soriano transforma-se numa espécie de advogado do Diabo que se vende à facção contrária em nome de uma crença desconhecida. O narrador de Ferreira de Castro compreendeu que, nesta personagem quase banal, algo irrompera. Esse algo estava inexoravelmente relacionado com os misteriosos caminhos da política; misteriosos, apesar de humanos. O problema de Álvaro Soriano afigurou-se, desde o início, profundamente humano e era aí que residia a sua incompreensão perante os olhos da colectividade. A evidência entrevista por esta personagem tornava-se obscuridade para a maioria. É a partir daqui que surge a solidão profunda da consciência.

Solidão ideológica e conflito dramático

Apesar da solidão ideológica de Álvaro Soriano, a sua atitude fá-lo tornar-se o centro das atenções, pois ela afigura-se incompreensível. Inicia-se, assim, um jogo dramático entre as ideias que passa a defender e os ideais que os outros entendem que ele não deve abandonar. Esse conflito dramático irá acontecer em vários planos, consoante o tipo de relação pré-existente entre os participantes nessa contenda que podemos considerar inútil, porquanto Soriano jamais voltará atrás na sua decisão.

O abandono do Partido Socialista, que na sua juventude ajudara a fundar, é um gesto incompreensível, pois a imagem da traição não se conjuga com a imagem do político. Para a maioria, esse gesto é inconsequente e ridículo. O cerco aperta-se à volta do personagem a partir do momento em que este se determina a confirmar a notícia veiculada pelos jornais. Os seus companheiros de jornada, que começaram por duvidar do que liam, recusaram-se a aceitar essa realidade esmagadora. Chovem cartas e telefonemas ameaçadores, mas os seus inimigos raramente se identificam. A solidão de Soriano torna-se insuportável, pois o cerco aperta-se à sua volta duplamente: a nível da opinião pública e a nível familiar, pois há um dos seus filhos (o menos corrupto) que considera o seu afastamento uma traição. Um dos seus amigos mais chegados, Pepe Martinez, entrega-se a um estranho mutismo: quando Soriano o interpela, no sentido de encontrar alguma solidariedade, recusa-se a falar no assunto através de evasivas.

A narrativa desenrola-se a partir de um intenso conflito dramático que se irá estabelecer entre Álvaro Soriano, os seus dois filhos, a sua irmã Mercedes,

o dito Pepe Martinez , os ex-companheiros da vida político-partidária e também com o próprio líder do Partido Nacional, que estabelece com ele um jogo cínico. A progressão da narrativa vai-se resolvendo a partir de um processo dialéctico entre duas posições distintas. Aparentemente, Soriano possui apenas dois aliados: Mercedes e Pablo, o seu filho mais novo, que fazem o jogo dos nacionalistas e que concordam com o seu afastamento do Partido Socialista. Por um lado, Pablo tem em vista somente os seus interesses, pois procura alcançar um lugar de chefia num banco estatal através da influência directa do chefe do Partido nacional. Por outro, Mercedes abomina a ideologia socialista por saber que o Partido está entregue a certos indivíduos que estão a desvirtuá-lo e que já não escutam as ideias de Soriano.

Mercedes é-nos apresentada como uma personagem de forte carisma, pois possui uma personalidade bastante vincada. O leitor apercebe-se, desde o início da narrativa, que ela procura alcançar os seus objectivos sem se revelar abertamente perante Soriano. Ela é uma mulher dominadora, apesar dos seus trinta anos. Procura atingir os seus objectivos de uma forma discreta e sub-reptícia. Ela vai determinar a parte prática da vida do irmão a partir do momento em que ele fica viúvo: é ela que passa a dar as ordens a Ramona, a velha criada da casa; é ela que se preocupa com a nova decoração do gabinete de Soriano, pois defende a necessidade de acompanhar o gosto e a moda do tempo; é ela que retira do escritório do irmão o busto de Pablo Iglésias, o fundador do Partido Socialista; é ela que se faz representar por ele nas reuniões sociais; é ela que irá mover os "cordelinhos", junto do chefe do partido da situação, de modo a permitir que o irmão adira a ele; é ela que tenta convencer Soriano de que Enrique é enviado pelos socialistas para convencer o pai ao seu não afastamento do partido, alegando que ele fora transportado num carro desconhecido e misterioso; é ela, ainda, que irá ter um romance secreto com o sobrinho Pablo, seu cúmplice incondicional, romance que é descoberto pela velha Ramona e que esta denuncia a Enrique, irmão de Pablo, com descontentamento e amargura. O busto de Pablo Iglésias era compreendido por Mercedes como o último bastião de um Socialismo em que ela deixara de acreditar. Assim sendo, arrumá-lo na arrecadação das coisas velhas possuía o valor simbólico de uma abolição.

A longa contenda ideológica entre Enrique, Soriano e Pepe Martinez constitui, para nós, o momento mais elevado deste romance de Ferreira de Castro. É um fervilhante confronto de ideias, mas também um combate desigual: Enrique e Pepe Martinez, seu amigo de longa data, procuram chamá-lo à razão. Ambos lhe falam de traição aos ideais por que se batera ao longo da sua carreira; ambos lhe dizem que é preferível desistir da vida política do que transitar para o partido rival e tornar-se, desse modo, um bode expiatório e uma vitória daqueles em que nunca acreditara. Soriano defende-se, considerando que os ideais socialistas andavam longe da realidade.

Aludiu à sua condição de títere dentro do partido, revelando o seu descontentamento pela existência de forças contrárias no seu seio; que ele era apenas um joguete no meio dessas forças que já o não respeitavam, como acontece às velhas carcassas em decomposição. Soriano expressa o seu desejo em transitar para o partido do governo por entender que ainda possui energia suficiente para combater pelo bem comum. Não se sente um homem acabado, embora essa seja a sua imagem perante uma Espanha que se passeia sob um luar esfuziante e indiferente aos problemas políticos. Há um mundo que está a transformar-se e Soriano sente essa mudança, não como uma ameaça, mas sim como um sinal de um tempo em que as crenças políticas já são outras. Para o velho advogado e deputado socialista, o partido estava longe de adaptar-se a essa mudança: estagnara devido, não apenas a esse jogo de facção contrárias que surgiram no seu interior, mas também devido a uma inadequação real ao tempo que lhe era dado viver. Esse desajuste seria, em seu entender, fatal para a vida e para a permanência de uma crença ideológica. Para Álvaro Soriano, a injustiça social permanece como uma inexorável evidência, apesar das mutações sociais. O socialismo assumira-se sempre como um baluarte da vontade da melhoria social e da igualdade entre os homens, mas o seu esforço afigura-se, perante o olhar de Soriano, inglório; está-lhe subjacente o síndroma de uma impossibilidade.

Dessa contenda ideológica entre os três personagens, não há vencedor nem vencido: os argumentos de Pablo e de Pepe Martinez são tão sólidos como os de Álvaro Soriano. Porém, Soriano toma uma atitude definitiva: demite-se das suas funções de deputado, entrega ao seu companheiro de escritório todos os casos que tinha entre mãos como advogado e refugia-se na sua propriedade para cuidar somente da sua horta e das suas flores. Retirada estratégica? Talvez o reencontro com a moral, como lhe dirá mais tarde, por carta, o seu amigo Pepe Martinez.

 

Conflito interior e representação

 

O personagem a que o narrador de Ferreira de Castro dá o nome de Don Álvaro Soriano não está possuído pela traição ou, mesmo, pelo arrependimento. Na verdade, ele sabe que chegou a uma encruzilhada, a um momento da consciência que é, ao mesmo tempo, um drama pessoal. É pela assunção desse drama íntimo que este romance de Ferreira de Castro assume a importância que julgamos ter: apesar de não se assumir como um romance de ideias, nem ter a pretensão de ser subsidiário de uma filosofia, A Curva da Estrada apresenta-nos um problema que diz exclusivamente respeito a uma metafísica da moral O espírito de Álvaro Soriano jamais poderia resignar-se à constância de um percurso que quase poderíamos considerar determinista, pois todos nós saibamos que os caminhos do humano fazem parte do indeterminável e do contingente.

Podemos considerar este livro como um exame de consciência, não apenas da personagem principal, mas sobretudo do seu narrador. Mas ele é, na verdade, mais do que isso: ele constitui um testamento de humanidade. Todo o criador literário, ao atingir um certo estádio da sua existência, acaba por realizar em acto feito palavra, o resultado das suas crenças, das suas convicções e, sobretudo, das suas certezas. Há, porém, um aspecto curioso na história da razão. Esse aspecto está relacionado com uma perda, talvez uma das perdas mais fatais do nosso tempo: a perda desse conjunto de certezas que a experiência vivida vai acumulando. Há um desencontro não menos fatal entre a experiência vivida e o resultado dessa mesma experiência. A contingência a que a própria condição do humano se sujeita, determina esse desajuste entre o vivido e o carácter de impossibilidade a que é subjacente essa vivência. Reside aqui, em nosso entender, o drama íntimo de Álvaro Soriano. É a partir daqui que o personagem assume a sua dimensão de paradigma. Soriano é um personagem simultaneamente intemporal e universal, pois não será de todo errado considerar que podemos vislumbrar na sua imagem o homem do futuro. No entanto, para que essa nossa visão seja quase objectiva, é necessário que o predomínio da razão se imponha e que esta se mantenha como uma qualidade da lucidez. De resto, tem sido a partir desta conjuntura múltipla e complexa, que o processo histórico tem sido submetido às suas mutações mais radicais. O narrador de Ferreira de Castro serve-se da experiência de Soriano para demonstrar o seu ponto de vista acerca, não apenas da sua existência, mas também de uma existência colectiva. Álvaro Soriano é vítima de um conflito interior, conflito que se afigura incompreensível para os seus pares. Mas esse conflito é legitimado por um racionalismo triste e magoado: o percurso da vida não solidifica as certezas; em vez disso, estiola-as e torna-nos títeres perante um destino desconhecido. Soriano foi vítima das certezas iniciais e acabou também por ser vítima das certezas dos outros.

Há um aspecto que explica, em grande parte, a demissão de Álvaro Soriano das suas convicções políticas. Esse aspecto baseia-se no modo de representação que o personagem assume perante a mundividência que o cerca. Em traços gerais, o conceito de representação consiste na relação subjectiva de um sujeito com a realidade das coisas do mundo. A percepção que Soriano mantinha com o real, perdeu uma das suas estruturas fundamentais. Essa perda determinou uma alteração no modo de representação; ou seja, houve uma parte do mundo que passou a pertencer a uma dimensão desconhecida. Essa dimensão desconhecida passou, por sua vez, a ser representada pela descrença, pelo azedume, pela dúvida, pelo cepticismo, como se tratasse de um crente que perde subitamente a sua fé, que outrora fora inabalável. O mundo assumiu um rosto desconhecido e Soriano deixou de reconhecer-se a si mesmo, iniciando, dessa forma, um doloroso conflito com o seu próprio ser.

 

Crença ideológica e valores pessoais. A divergência com o passado

 

Existe uma tendência generalizada para se acreditar que a nossa vida pessoal deve ser mensurável em conformidade com uma só postura, uma só crença, uma só ideologia, como se todos fôssemos máquinas fabricadas para servir uma sociedade de forma inflexível. Existe também a crença na objectividade do pensamento, como se este fosse o produto de um inexorável determinismo. Para além da máquina complexa que é o corpo e do computador natural que é o cérebro, nada do que é humano é definitivo nem mensurável, nem mesmo numa dimensão cósmica. Por outro lado, o século XX tem sido vítima de um complexo. Trata-se do complexo da coerência e da constância, como se a vida e o mundo fossem a consequência de um percurso linear. Esse complexo tem vindo a assumir proporções cada vez mais graves no contexto histórico mundial, pois acarreta outros, como, por exemplo, o complexo da competência, tornado obsessão no seio de uma mediocridade gritante e de uma política de esclavagismo camuflado. Mercê de tudo isto, Álvaro Soriano mantém-se fiel aos seus valores pessoais, mas jamais poderá ser fiel a uma crença ideológica com a qual já não se pode identificar. Assistimos, dessa forma, à sua divergência com o passado, à ausência de si mesmo.

Tudo isto é visível neste romance de Ferreira de Castro. É de notar, porém, que não estamos perante uma demissão da vida. E podemos terminar com a mesma frase com que o narrador encerra este romance, através das palavras de Pepe Martinez que, acima de qualquer crença ideológica, todos devemos amar os homens. E nós repetimos a frase, tal como o narrador também a repete: para além da Natureza, devemos amar, acima de tudo, todos os homens. 

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* De facto, literatura e filosofia partem de um antagonismo fundamental: enquanto a primeira pertence ao domínio do subjectivo, a segunda exige a objectividade total. É nesta medida que são diferentes. Porém a literatura pode (e deve) servir-se de uma problemática filosófica para defender (ou demonstrar) as suas próprias teses. De resto, há um objecto comum que constitui a matéria-prima destas duas ramificações das ciências humanas: o próprio homem. Este aspecto legitima a sua aproximação

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