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(Director da Revista Artes e Artes)
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O
romance que Ferreira de Castro publicou em 1947, a que deu o título
significativo de A Curva da Estrada, representa, no contexto da obra do
autor, aquela que podemos considerar a sua época de maturidade. Não apenas
maturidade estilística mas também um tipo de maturidade que já lhe permite
perspectivar de uma forma diferente a própria dimensão do humano. De facto,
enquanto que em romances como Emigrantes (1928) ou A Selva (1930),
livros maiores na sua obra, o humano é encarado na sua dimensão mais
miserabilista, pois trata-se de um tipo de homem circunscrito a uma época específica
do processo histórico que enfrenta apenas a sua condição de ser sobrevivente,
a problemática apresentada em A Curva da Estrada já em muito se
distancia das questões da sobrevivência para centrar-se sobretudo nas questões
de ordem ética e ideológica. Mais do que isso: centra-se também em aspectos
marcadamente psicológicos, característica que irá afastar, de um modo
definitivo, a obra da Ferreira da Castro da corrente literária dominante no seu
tempo conhecida por neo-realismo.
Existe
uma diferença fundamental entre o movimento neo-realista e a obra de Ferreira
de Castro. Essa diferença reside no foco narrativo, ou seja, na própria matéria
novelística. Enquanto a generalidade das obras produzidas pelo neo-realismo
centrava a sua problemática numa personagem colectiva, pois os romances
produzidos pelo neo-realismo tinham em vista um objectivo social, Ferreira de
Castro preocupa-se com a condição do indivíduo isolado, conferindo, desse
modo, às suas narrativas uma dimensão psicologista. É o que acontece com
Manuel da Bouça de Os Emigrantes ou com Alberto de A Selva. Ambas
as narrativas partem de um pressuposto autobiográfico, aspecto legítimo na
obra de um autor, visto que a experiência vivida é uma característica
indissociável de toda a obra literária.
Não
sabemos se Don Álvaro Soriano, a personagem em que centrou a problemática
de A Curva da Estrada, parte de um pressuposto autobiográfico, mas esse
aspecto é, neste livro, irrelevante, porquanto Álvaro Soriano possui uma
característica que o distingue da maioria dos outros "anti-heróis"
de Ferreira de Castro. Essa característica é, justamente, a sua
universalidade.
Reside
aqui um dos aspectos mais positivos da obra de arte literária: quanto maior for
o seu carácter universal, maior será também a sua intemporalidade. Esta relação
da obra com o tempo, faz dela o testemunho vivo de um momento específico do
processo histórico. A acção de A Curva da Estrada passa-se em Espanha,
numa conjuntura política que supomos ser pós-revolucionária, embora o autor
tivesse o propósito de não tornar política a sua narrativa. O narrador de
Ferreira de Castro furta-se sempre a pronunciar o nome do chefe do governo
espanhol, limitando-se apenas a referir o confronto entre os partidos socialista
e nacional, pois será a partir deste confronto que irá surgir a grande dúvida
moral de Álvaro Soriano.
O
problema apresentado em A
Curva da Estrada
Embora
a acção deste livro decorra num contexto histórico não nacional, talvez por
o autor entender que o país vizinho apresentava características psicológicas
mais propícias para a abordagem do problema, a matéria que é apresentada ao
leitor denota aspectos peculiares à literatura portuguesa coeva. Sem dúvida
que o homem, pela sua fragilidade e pela sua contingência, sempre foi uma
entidade determinante em qualquer problemática literária. Porém, se lançarmos
um olhar à literatura portuguesa produzida nas primeiras décadas deste século,
verificamos que as preocupações em torno do homem se centram mais em aspectos
de carácter económico, em aspectos referentes a uma situação específica da
sobrevivência, seja a nível das condições do trabalho, seja a nível da relação
com a saúde ou com a doença, seja, mesmo, com aspectos de ordem prática
enaltecidos por um lirismo mais prosaico do que poético (e referimo-nos,
sobretudo, à criação ficcional), aspectos sem dúvida motivados por uma situação
política castradora e punitiva. O nosso lirismo intrínseco, enraizado também
na própria matéria novelística, fez desviar o possível caminho da nossa criação
ficcional para uma posição de carácter menos filosófico; ou seja, a
literatura portuguesa tem-se preocupado mais com as questões do folclore e do
colorido, do que com as questões referentes a uma metafísica do humano. A própria
relação com Deus e com o sagrado é resolvida pela narrativa de um modo
passivo, sem angústia ou inquietação, circunstância que não nos deixa
grandes margens para um qualquer aspecto da metafísica. Por outro lado, a tradição
académica portuguesa, arraigada a uma filologismo quase despótico, sempre nos
fez crer que não pode existir qualquer tipo de relação entre a problemática
literária e a problemática filosófica*. Para o academismo, a questão
da metafísica jamais poderá ser relevante num país cuja população fora
sempre predominantemente rural e que tem sido a protagonista por excelência da
matéria literária. Esse ruralismo é também visível na maioria dos restantes
romances de Ferreira de Castro, apesar da sua tendência urbana, visível em
livros como A Tempestade (1940) ou no livro de que agora nos ocupamos.
Porém, mesmo em autores que centraram a sua ficção no espaço citadino, como
aconteceu com Joaquim Paço D'Arcos ou Fernando namora, sobreleva o aspecto telúrico
e, quantas vezes, ruralizante.
O
exemplo de Ferreira de Castro não será, apesar do seu contributo, muito
relevante para a questão da metafísica, embora o romance A Curva da Estrada
apresente já, como dissemos, uma preocupação diferente da dos romances
anteriores. É-nos difícil imaginar que um autor como Ferreira de Castro
tivesse passado ao lado da irrupção existencialista que se deu na Europa no
auge da sua carreira, que aconteceu aquando da publicação de A Selva em
1930. Embora a problemática existencialista muito escassamente se tivesse
pronunciado entre nós (a não ser em autores isolados como em José Régio, que
publica o Jogo da Cabra Cega em 1934, ou em Fernando Pessoa, na época
ainda quase absolutamente inédito), o aparecimento de A Curva da Estrada é
já um sintoma, embora débil, dessa viragem gradual da literatura para as questões
filosóficas. Isso aconteceu, por exemplo paradigmático, com Vergílio
Ferreira, que, apesar das suas primícias neo-realistas, cedo se determinou pelo
caminho da problemática do homem. Esta consciência, porém, só iria dar-se em
1949, com a publicação do romance intitulado Mudança.
Se
partirmos do pressuposto de que a linguagem determina a essência do Ser,
devemos entender a arte literária como um fenómeno, não apenas do domínio da
criação, mas também do domínio especulativo e racional. Não basta, na
verdade, contar uma história; é necessário que essa história aumente a substância
do humano de modo a que possamos considerá-la válida na própria história
literária. É certo que há livros que se tornam datados pelo simples facto de
não acompanharem, nem o tempo, nem o próprio processo histórico, aspectos
indissociáveis de um humanismo que se recusa à estagnação. A circunscrição
de uma obra ao tempo que a viu nascer é, muitas vezes, um mal necessário,
sobretudo se essa obra possuir qualquer característica panfletária. Esse foi
um dos defeitos (senão o principal) da literatura dita neo-realista. Podemos
medir a perenidade de um livro se nele encontrarmos uma substância humana que
se reconhece, a priori, intemporal. Embora a mudança seja uma característica
do homem, há aspectos da condição humana que se repetem indefinidamente, como
se todos nós obedecêssemos às regras de um jogo previamente estabelecido e do
qual não podemos fugir. Trata-se, na verdade, de um jogo cósmico a partir do
qual se determinam os ciclos históricos, de pequena ou de longa duração.
O
romance de Ferreira de Castro, centra-se, de facto, numa questão de carácter
existencial. Don Álvaro Soriano é um velho deputado da oposição que
está prestes a abandonar o seu partido para se filiar no partido do Governo.
Esta metamorfose, acompanhada de uma dúvida fundamental, constitui o problema
central de A Curva da Estrada. O próprio título do romance,
simultaneamente uma metáfora e uma imagem, remete o leitor para uma questão
que se tornou fundamental nas chamadas "filosofias da existência".
Essa questão reporta-se ao caminho que cada homem persegue ao longo de uma vida
cheia e inteira. Podemos utilizar aqui uma metáfora cara ao próprio
existencialismo, proposta por Kierkgaard, que compara a existência a um
labirinto e não a uma estrada rectilínea, conforme certos ideais nos levam a
acreditar. A consciência da
dificuldade
é assumida com desencanto, mas há uma evidência a que nenhum homem pode
fugir: essa evidência acontece quando se dá a queda definitiva no abismo. É
uma queda de tal forma violenta que já não é possível voltar atrás para
remediá-la. Esse tem sido um dos pressupostos da condição humana.
Podemos
estabelecer uma correspondência entre a personagem central deste romance, Don
Álvaro Soriano, e a figura bíblica do Anjo caído. De facto, perante a
opinião pública e perante a colectividade, Soriano transforma-se numa espécie
de advogado do Diabo que se vende à facção contrária em nome de uma crença
desconhecida. O narrador de Ferreira de Castro compreendeu que, nesta personagem
quase banal, algo irrompera. Esse algo estava inexoravelmente relacionado com os
misteriosos caminhos da política; misteriosos, apesar de humanos. O problema de
Álvaro Soriano afigurou-se, desde o início, profundamente humano e era aí que
residia a sua incompreensão perante os olhos da colectividade. A evidência
entrevista por esta personagem tornava-se obscuridade para a maioria. É a
partir daqui que surge a solidão profunda da consciência.
Solidão
ideológica e conflito dramático
Apesar
da solidão ideológica de Álvaro Soriano, a sua atitude fá-lo tornar-se o
centro das atenções, pois ela afigura-se incompreensível. Inicia-se, assim,
um jogo dramático entre as ideias que passa a defender e os ideais que os
outros entendem que ele não deve abandonar. Esse conflito dramático irá
acontecer em vários planos, consoante o tipo de relação pré-existente entre
os participantes nessa contenda que podemos considerar inútil, porquanto
Soriano jamais voltará atrás na sua decisão.
O
abandono do Partido Socialista, que na sua juventude ajudara a fundar, é um
gesto incompreensível, pois a imagem da traição não se conjuga com a imagem
do político. Para a maioria, esse gesto é inconsequente e ridículo. O cerco
aperta-se à volta do personagem a partir do momento em que este se determina a
confirmar a notícia veiculada pelos jornais. Os seus companheiros de jornada,
que começaram por duvidar do que liam, recusaram-se a aceitar essa realidade
esmagadora. Chovem cartas e telefonemas ameaçadores, mas os seus inimigos
raramente se identificam. A solidão de Soriano torna-se insuportável, pois o
cerco aperta-se à sua volta duplamente: a nível da opinião pública e a nível
familiar, pois há um dos seus filhos (o menos corrupto) que considera o seu
afastamento uma traição. Um dos seus amigos mais chegados, Pepe Martinez,
entrega-se a um estranho mutismo: quando Soriano o interpela, no sentido de
encontrar alguma solidariedade, recusa-se a falar no assunto através de
evasivas.
A
narrativa desenrola-se a partir de um intenso conflito dramático que se irá
estabelecer entre Álvaro Soriano, os seus dois filhos, a sua irmã Mercedes,
o
dito Pepe Martinez , os ex-companheiros da vida político-partidária e também
com o próprio líder do Partido Nacional, que estabelece com ele um jogo cínico.
A progressão da narrativa vai-se resolvendo a partir de um processo dialéctico
entre duas posições distintas. Aparentemente, Soriano possui apenas dois
aliados: Mercedes e Pablo, o seu filho mais novo, que fazem o jogo dos
nacionalistas e que concordam com o seu afastamento do Partido Socialista. Por
um lado, Pablo tem em vista somente os seus interesses, pois procura alcançar
um lugar de chefia num banco estatal através da influência directa do chefe do
Partido nacional. Por outro, Mercedes abomina a ideologia socialista por saber
que o Partido está entregue a certos indivíduos que estão a desvirtuá-lo e
que já não escutam as ideias de Soriano.
Mercedes
é-nos apresentada como uma personagem de forte carisma, pois possui uma
personalidade bastante vincada. O leitor apercebe-se, desde o início da
narrativa, que ela procura alcançar os seus objectivos sem se revelar
abertamente perante Soriano. Ela é uma mulher dominadora, apesar dos seus
trinta anos. Procura atingir os seus objectivos de uma forma discreta e sub-reptícia.
Ela vai determinar a parte prática da vida do irmão a partir do momento em que
ele fica viúvo: é ela que passa a dar as ordens a Ramona, a velha criada da
casa; é ela que se preocupa com a nova decoração do gabinete de Soriano, pois
defende a necessidade de acompanhar o gosto e a moda do tempo; é ela que retira
do escritório do irmão o busto de Pablo Iglésias, o fundador do Partido
Socialista; é ela que se faz representar por ele nas reuniões sociais; é ela
que irá mover os "cordelinhos", junto do chefe do partido da situação,
de modo a permitir que o irmão adira a ele; é ela que tenta convencer Soriano
de que Enrique é enviado pelos socialistas para convencer o pai ao seu não
afastamento do partido, alegando que ele fora transportado num carro
desconhecido e misterioso; é ela, ainda, que irá ter um romance secreto com o
sobrinho Pablo, seu cúmplice incondicional, romance que é descoberto pela
velha Ramona e que esta denuncia a Enrique, irmão de Pablo, com
descontentamento e amargura. O busto de Pablo Iglésias era compreendido por
Mercedes como o último bastião de um Socialismo em que ela deixara de
acreditar. Assim sendo, arrumá-lo na arrecadação das coisas velhas possuía o
valor simbólico de uma abolição.
A
longa contenda ideológica entre Enrique, Soriano e Pepe Martinez constitui,
para nós, o momento mais elevado deste romance de Ferreira de Castro. É um
fervilhante confronto de ideias, mas também um combate desigual: Enrique e Pepe
Martinez, seu amigo de longa data, procuram chamá-lo à razão. Ambos lhe falam
de traição aos ideais por que se batera ao longo da sua carreira; ambos lhe
dizem que é preferível desistir da vida política do que transitar para o
partido rival e tornar-se, desse modo, um bode expiatório e uma vitória
daqueles em que nunca acreditara. Soriano defende-se, considerando que os ideais
socialistas andavam longe da realidade.
Aludiu
à sua condição de títere dentro do partido, revelando o seu descontentamento
pela existência de forças contrárias no seu seio; que ele era apenas um
joguete no meio dessas forças que já o não respeitavam, como acontece às
velhas carcassas em decomposição. Soriano expressa o seu desejo em transitar
para o partido do governo por entender que ainda possui energia suficiente para
combater pelo bem comum. Não se sente um homem acabado, embora essa seja a sua
imagem perante uma Espanha que se passeia sob um luar esfuziante e indiferente
aos problemas políticos. Há um mundo que está a transformar-se e Soriano
sente essa mudança, não como uma ameaça, mas sim como um sinal de um tempo em
que as crenças políticas já são outras. Para o velho advogado e deputado
socialista, o partido estava longe de adaptar-se a essa mudança: estagnara
devido, não apenas a esse jogo de facção contrárias que surgiram no seu
interior, mas também devido a uma inadequação real ao tempo que lhe era dado
viver. Esse desajuste seria, em seu entender, fatal para a vida e para a permanência
de uma crença ideológica. Para Álvaro Soriano, a injustiça social permanece
como uma inexorável evidência, apesar das mutações sociais. O socialismo
assumira-se sempre como um baluarte da vontade da melhoria social e da igualdade
entre os homens, mas o seu esforço afigura-se, perante o olhar de Soriano, inglório;
está-lhe subjacente o síndroma de uma impossibilidade.
Dessa
contenda ideológica entre os três personagens, não há vencedor nem vencido:
os argumentos de Pablo e de Pepe Martinez são tão sólidos como os de Álvaro
Soriano. Porém, Soriano toma uma atitude definitiva: demite-se das suas funções
de deputado, entrega ao seu companheiro de escritório todos os casos que tinha
entre mãos como advogado e refugia-se na sua propriedade para cuidar somente da
sua horta e das suas flores. Retirada estratégica? Talvez o reencontro com a
moral, como lhe dirá mais tarde, por carta, o seu amigo Pepe Martinez.
Conflito
interior e representação
O
personagem a que o narrador de Ferreira de Castro dá o nome de Don Álvaro
Soriano não está possuído pela traição ou, mesmo, pelo arrependimento. Na
verdade, ele sabe que chegou a uma encruzilhada, a um momento da consciência
que é, ao mesmo tempo, um drama pessoal. É pela assunção desse drama íntimo
que este romance de Ferreira de Castro assume a importância que julgamos ter:
apesar de não se assumir como um romance de ideias, nem ter a pretensão de ser
subsidiário de uma filosofia, A Curva da Estrada apresenta-nos um
problema que diz exclusivamente respeito a uma metafísica da moral O espírito
de Álvaro Soriano jamais poderia resignar-se à constância de um percurso que
quase poderíamos considerar determinista, pois todos nós saibamos que os
caminhos do humano fazem parte do indeterminável e do contingente.
Podemos
considerar este livro como um exame de consciência, não apenas da personagem
principal, mas sobretudo do seu narrador. Mas ele é, na verdade, mais do que
isso: ele constitui um testamento de humanidade. Todo o criador literário, ao
atingir um certo estádio da sua existência, acaba por realizar em acto
feito palavra, o resultado das suas crenças, das suas convicções e,
sobretudo, das suas certezas. Há, porém, um aspecto curioso na história da
razão. Esse aspecto está relacionado com uma perda, talvez uma das perdas mais
fatais do nosso tempo: a perda desse conjunto de certezas que a experiência
vivida vai acumulando. Há um desencontro não menos fatal entre a experiência
vivida e o resultado dessa mesma experiência. A contingência a que a própria
condição do humano se sujeita, determina esse desajuste entre o vivido e o carácter
de impossibilidade a que é subjacente essa vivência. Reside aqui, em nosso
entender, o drama íntimo de Álvaro Soriano. É a partir daqui que o personagem
assume a sua dimensão de paradigma. Soriano é um personagem simultaneamente
intemporal e universal, pois não será de todo errado considerar que podemos
vislumbrar na sua imagem o homem do futuro. No entanto, para que essa nossa visão
seja quase objectiva, é necessário que o predomínio da razão se imponha e
que esta se mantenha como uma qualidade da lucidez. De resto, tem sido a partir
desta conjuntura múltipla e complexa, que o processo histórico tem sido
submetido às suas mutações mais radicais. O narrador de Ferreira de Castro
serve-se da experiência de Soriano para demonstrar o seu ponto de vista acerca,
não apenas da sua existência, mas também de uma existência colectiva. Álvaro
Soriano é vítima de um conflito interior, conflito que se afigura incompreensível
para os seus pares. Mas esse conflito é legitimado por um racionalismo triste e
magoado: o percurso da vida não solidifica as certezas; em vez disso,
estiola-as e torna-nos títeres perante um destino desconhecido. Soriano foi vítima
das certezas iniciais e acabou também por ser vítima das certezas dos outros.
Há
um aspecto que explica, em grande parte, a demissão de Álvaro Soriano das suas
convicções políticas. Esse aspecto baseia-se no modo de representação que
o personagem assume perante a mundividência que o cerca. Em traços gerais, o
conceito de representação consiste na relação subjectiva de um sujeito com a
realidade das coisas do mundo. A percepção que Soriano mantinha com o real,
perdeu uma das suas estruturas fundamentais. Essa perda determinou uma alteração
no modo de representação; ou seja, houve uma parte do mundo que passou a
pertencer a uma dimensão desconhecida. Essa dimensão desconhecida passou, por
sua vez, a ser representada pela descrença, pelo azedume, pela dúvida, pelo
cepticismo, como se tratasse de um crente que perde subitamente a sua fé, que
outrora fora inabalável. O mundo assumiu um rosto desconhecido e Soriano deixou
de reconhecer-se a si mesmo, iniciando, dessa forma, um doloroso conflito com o
seu próprio ser.
Crença
ideológica e valores pessoais. A divergência com o passado
Existe
uma tendência generalizada para se acreditar que a nossa vida pessoal deve ser
mensurável em conformidade com uma só postura, uma só crença, uma só
ideologia, como se todos fôssemos máquinas fabricadas para servir uma
sociedade de forma inflexível. Existe também a crença na objectividade do
pensamento, como se este fosse o produto de um inexorável determinismo. Para além
da máquina complexa que é o corpo e do computador natural que é o cérebro,
nada do que é humano é definitivo nem mensurável, nem mesmo numa dimensão cósmica.
Por outro lado, o século XX tem sido vítima de um complexo. Trata-se do
complexo da coerência e da constância, como se a vida e o mundo fossem a
consequência de um percurso linear. Esse complexo tem vindo a assumir proporções
cada vez mais graves no contexto histórico mundial, pois acarreta outros, como,
por exemplo, o complexo da competência, tornado obsessão no seio de uma
mediocridade gritante e de uma política de esclavagismo camuflado. Mercê de
tudo isto, Álvaro Soriano mantém-se fiel aos seus valores pessoais, mas jamais
poderá ser fiel a uma crença ideológica com a qual já não se pode
identificar. Assistimos, dessa forma, à sua divergência com o passado, à ausência
de si mesmo.
Tudo isto é visível neste romance de Ferreira de Castro. É de notar, porém, que não estamos perante uma demissão da vida. E podemos terminar com a mesma frase com que o narrador encerra este romance, através das palavras de Pepe Martinez que, acima de qualquer crença ideológica, todos devemos amar os homens. E nós repetimos a frase, tal como o narrador também a repete: para além da Natureza, devemos amar, acima de tudo, todos os homens.
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* De
facto, literatura e filosofia partem de um antagonismo fundamental: enquanto
a primeira pertence ao domínio do subjectivo, a segunda exige a
objectividade total. É nesta medida que são diferentes. Porém a
literatura pode (e deve) servir-se de uma problemática filosófica para
defender (ou demonstrar) as suas próprias teses. De resto, há um objecto
comum que constitui a matéria-prima destas duas ramificações das ciências
humanas: o próprio homem. Este aspecto legitima a sua aproximação