Calheiros - Continuação 

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A Lã e a Neve:

testemunho corajoso sobre homens ousados[1]

  (Continuação)

Justificando a sua afirmação, Henry Poulaille escreveu, mostrando conhecer bem a obra do escritor português que prefaciava:

Qu'il nous décrive un drame rustique dans un cadre falot d'un hameau perdu (Terre Froide) ou l'odyssée d'un émigrant gâchant sa vie (Émigrants), ou la vie des bergers et l'existence ouvrière pénible du Portugal (Les Brebis du Seigneur), ses romans sont tous pris en pleine chair vivante et les fruits amers, mais non aigres, l'expérience personnelle ont un accent d'authenticité indubitable. C'est la psychologie de l'âme primitive du peuple que le romancier s'attache à exprimer et jamais plume ne fut plus autorisée que la sienne, si riche d'avoir côtoyé en pauvre toute la misère de l'homme. Qu'il décrive la vie intérieure de la forêt, le travail aux plantations, le train-train journalier d'obscurs héros pliés sous la fatalité et la superstition, la hantise du pays natal chez l'exilé, l'animation d'une rue en effervescence, les promiscuités dans les cales d'un bateau lourd de bétail humain, ou la labeur dans une filature, l’existence inconnue des bergers, l'écrivain ne se laisse jamais aller à faire de la littérature inutile. Cela n'empêche pas, ressalva Henry Poulaille, que chez lui le peintre, le poète soient présents à chaque ligne, mais dans une fusion si intime, avec une telle délicatesse de touche, même quand la couleur est crue et violente, et que le pathétique du réalisme atteint au summum, que l'on est subjugué par la sûreté de main et la maîtrise du romancier.[18]

  Justíssimas palavras e magistral síntese da temática dos romances de Ferreira de Castro. O prefaciador francês pouco depois proclama qu'avec Ferreira de Castro la littérature vivante n’ábaisse pas pavillon. Entrando na apresentação mais pormenorizada do romance Henry Poulaille escreve:

Oeuvre d'atmosphère encore, Les Brebis du Seigneur. C'est encore des décors du Portugal d'aujourd'hui qui forment le fond de cette fresque. C’est le drame du peuple portugais que l'écrivain nous y expose. C'est la psychologie du prolétaire de là-bas, imaginatif rêveur, patient et résigné finalement, mais gardant cependant la flamme d'espoir, cachée sous les cendres[19].

Recusando-se a resumir a trama da intriga romanesca, Henry Poulaille tece mais este comentário encomiástico sobre a técnica narrativa de Ferreira de Castro:

En tant que roman, Les Brebis du Seigneur sont peut-être le plus romanesquement conduit que Ferreira nous ait offert. Il y a une progression dramatique soutenue; ce que les confrères appellent le métier. D'aucuns ont fait la fine bouche, à propos de Forêt Vierge, d’Emigrants et de Terre Froide. Ces livres étaient plus de documentaires que des romans. Ce qui est une manière de dire que le vivant est au-dessous du littéraire; conception bien conformiste et qui est heureusement en voie de s'éculer[20].

Vale a pena continuar a transcrever estas sentidas palavras de Henry Poulaille, porque elas dizem acertadamente as razões do sucesso de Ferreira de Castro, não só em França como aqui em Portugal e noutras partes do Mundo. As citações são extensas, mas prefiro apagar-me e substituir parte da minha análise pela síntese magistral que o crítico e escritor francês ofereceu aos leitores da tradução que estava prefaciando:

Nous constatons simplement, assegura ele, que techniquement Les Brebis du Seigneur ressemblent plus au roman du type admis, que ne leur ressemblaient les autres. Nous n’y voyons là qu'une preuve nouvelle que Ferreira est un auteur en perpétuel renouvellement, et nous en sommes contents. Mais ce qui nous intéresse en ce livre c'est moins sa composition que son contenu. Et pour ce qui est de la matière de ce livre, nous y voyons qu’elle n’a pas changé. A travers la petite anecdote sentimentale d’Horacio et d’Idalina, c'est le grand problème de la misère du peuple. C’est la vie populaire exposée en deux parties qui comme deux volets du diptyque se complètent. La face pastorale, la face industrielle. Et si des incidents dramatiques y apportent quelque romanesque, si des pages comme celles de l'errance des deux hommes perdus dans le brouillard atteignent à une extraordinaire intensité, c'est encore le côté qu'on dira peut-être documentaire, et qui est l'expression de la vie même, qui domine. C'est le travail des bergers aux pâturages, la montée à l'alpage, le soin aux bêtes, la solitude qui nous y sont dites dans la première partie. Et c'est autre chose que les bergeries de Giono, comenta Henry Poulaille, prosseguindo a sua argumentação: Dans la seconde partie, plus rude, c'est le travail à la filature, c'est la vie ouvrière dans ses aspirations, dans ses luttes, la grève, l'échauffourée, la fin de tels travailleurs à l'hospice, la conduite de tel autre á sa dernière demeure et tous les actes du travail. Est-ce que quelqu'un avait jamais décrit l'activité d'une filature comme Ferreira?[21], interroga o comentador.

No final da apresentação do romance o escritor francês classifica a obra de Ferreira de Castro como uma obra-prima:

L'histoire d’Horacio et d’Idalina qui se déroule est un prétexte à cette fresque. Si le prétexte fait mieux apprécier l'ensemble, réjouissons-nous. On a dit au Portugal et au Brésil que Les Brebis du Seigneur étaient le chef-d’œuvre de Ferreira de Castro.

C'est en effet un chef-d’œuvre[22], conclui entusiasmado Henry Poulaille, passando logo a seguir à apresentação do bondoso escritor.

Por cá, e mais perto de nós no tempo, Álvaro Salema referiu A Lã e a Neve como o mais definido testemunho do sentido social e da capacidade de representação da realidade popular portuguesa individualizada em personagens e comportamentos na obra de Ferreira de Castro. A largueza e segurança de composição do romance, assevera o crítico português, na linha do realismo novo que revitalizava a literatura portuguesa e a integrava nas grandes aspirações colectivas, determinaram-lhe uma larga divulgação em Portugal e no estrangeiro[23].

Agustina Bessa-Luís teve a humildade de confessar por duas vezes que deve a sua vocação literária à leitura de A Selva, por recomendação de seu pai. A autora de A Sibila visitou a Amazónia com o fantasma do escritor osselense sempre a seu lado, tendo para si que o Amazonas resplandecia da presença de Ferreira de Castro.[24]

José Rodrigues Miguéis proclamou que «A SELVA», «Emigrantes», «A Lã e a Neve», entre outros títulos de Ferreira de Castro, representam trabalhos de excelente nível, que o situam no plano dos romancistas do nosso tempo[25].

Fernando Namora teve a hombridade de reconhecer a sua dívida e da sua geração para com o autor de Emigrantes e de Eternidade. Criticando a guerrilha que alguns confrades e críticos lhe moviam, Namora lembrava que apenas os medíocres podem fruir as unanimidades, a paz de não terem detractores, estes tanto mais ferozes quanto mais se agiganta o objecto da sua contestação. Namora chega mesmo a falar de uma inevitável «revolta contra o pai» observada naqueles que escolhem um caminho e, num dado momento, desvalorizam as fontes para evidenciarem a sua emancipação. O autor de O Trigo e o Joio, referindo-se às marés literárias, à alternância de esquecimento e de devoções diz que só passa por elas quem as merece[26].

Até Vitorino Nemésio lhe prestou um comovido tributo, reconhecendo o pecado de não ter sempre dado a atenção que Ferreira de Castro, excelente pessoa e pomba sem fel, merecia. O autor de Mau Tempo no Canal reconhece que A Lã e a Neve, Eternidade e a Experiência são obras excepcionalmente conseguidas, para não falar da proverbial obra-prima que é A Selva[27].

Urbano Tavares Rodrigues afirmou que o pioneiro Ferreira de Castro, o primeiro escritor que começ[ou] a desbravar o terreno que os neo-realistas virão a cultivar com espírito programático a partir do final da década de 30, esse percursor que fora Ferreira de Castro é por seu turno marcado pelo maior rigor da nova escola, pelo estudo a que, uns mais do que outros, procedem os expoentes desta literatura cujo «deus oculto» é o marxismo. Isso nota-se – explica o autor de Exílio Perturbado particularmente na elaboração dos romances A Lã e a Neve (1947) e A Curva da Estrada (1950)[28].

Óscar Lopes confessou que Ferreira de Castro foi um dos seus modelos literários; este corajoso crítico e historiador da nossa literatura considerou-se um neo-realista (título de que até não gosta[ra] nunca, tal como Mário Dionísio), seguindo uma pauta que, entre os seus modelos conta com A Lã e a Neve, 1947, apesar de certas fraquezas deste livro, acrescenta Óscar Lopes. Achando que a narração é por vezes vagarosa, Óscar Lopes não deixa, todavia, de perguntar: Onde há uma personalidade tão completa como a do velho anarquista Marreta de A Lã e a Neve, que estudou esperanto, é vegetariano e não fuma, e que sabe perfeitamente já não ter a presteza de início, e está a pensar na sua substituição por Horácio, – esse seu futuro, previsto e querido sucessor, que o vai condenar a uma morte lenta, fruto do seu salário baixíssimo? E os múltiplos acidentes – continua a salientar Óscar Lopes – de querer acender a lanterna, na longa caminhada de toda uma noite tempestuosa, em A Lã e a Neve?[29] O crítico acaba por declarar que A Lã e a Neve é o seu livro mais equilibrado (apesar de lhe faltar o fundo epopeico da Amazónia) e reconhece em Ferreira de Castro a representação literária do povo rural português[30].

Ainda este ano, em Aveiro, Cecília Sacramento num sentido "Testemunho" incluía A Lã e a Neve, a par de A Selva, Emigrantes e Eternidade, entre os romances mais tocados pelo sofrimento[31] e lembrava que o romance A Lã e a Neve foi, em 1951, seleccionado pelo Club Français du Livre como o melhor romance em língua estrangeira[32].

Para Jorge Amado, o autor de A Lã e a Neve sempre foi o arauto de boas novas, mão solidária, palavra acolhedora[33].

 

2. – A Lã e a Neve um «Bildungsroman» dum pastor da Serra da Estrela.

 

O romance está dividido em três partes: a primeira intitulada "Os Rebanhos", a segunda "Lã e Neve", justificando o título do romance, como se vê, e a terceira "A Casa".

Nesta obra sobre os pastores da Serra da Estrela e sobre o proletariado têxtil da Covilhã o leitor assiste através do desenrolar da acção à iniciação de Horácio, que passa por três fases bem distintas: a do seu serviço militar – onde conhece um outro mundo e onde melhora a sua rudimentar formação escolar; a fase intermediária, a das dificuldades dos seus primeiros anos de casado, seus sonhos e frustrações; e, a última e a mais significativa, que vai correndo paralela a esta, a fase da educação política que vai adquirindo no meio fabril mais consciencializado da Covilhã, mas sobretudo a da iniciação que recebe do velho e generoso anarquista Marreta.

Durante a primeira fase, Horácio toma consciência, sobretudo no Estoril e em Lisboa, da diferença abissal que separa a vida dos citadinos abastados, ou mesmo remediados, da sua pobre vida e da situação miserável dos seus conterrâneos, dos outros pastores da Serra da Estrela e ainda também dos operários covilhanenses, explorados e sofrendo as maiores privações. Numa oposição cidade-campo – ou melhor, à maneira eciana, e que, de resto, corresponde mais ao quadro espacial do romance, num contraste cidade-serra – Ferreira de Castro mostra-nos, desde a segunda página do romance, Horácio a contar à sua conversada Idalina os encantos e maravilhas que contemplara, embevecido, no Estoril ou na capital, outra terra de alguns Jacintos que vivem em outros 202, de que ele nunca ouviu falar evidentemente; cidade onde chegou a querer permanecer para tentar dar outro rumo à sua vida, sem ter, porém, conseguido arranjar emprego. Horácio vem da tropa decidido a adiar o seu casamento para poder construir uma casa nova, com melhores condições do que aquela que fatalmente lhes caberia em sorte.

A Lã e a Neve é, de certa forma, o contrário de A Cidade e as Serras. Em Tormes, Jacinto lê Virgílio e goza as doçuras bucólicas das margens do Douro. Na Serra da Estrela, Horácio, nome que Ferreira de Castro não escolheu certamente à toa, tenta a todo o custo fugir da miséria de Manteigas e vai ter que aprender a contentar-se, não com a aurea mediocritas, que o povo não sabe o que é e nem pode desfrutar. Terá de resignar-se a abandonar o seu individualismo e procurar mudar a sua condição, lutando pela melhoria da sorte de todos os pobres como ele.

À boa maneira realista, mas com notas que prenunciam o neo-realismo, Ferreira de Castro vai-nos instalando no ambiente serrano das terras de Manteigas, descrevendo o grande vale, ao pé do Zêzere, que na paz crepuscular adquiria voz forte, correndo e cantando entre os penedais do seu leito. A luz parecia desprender-se, como um véu, da imensurável cavidade, prossegue o narrador criando a atmosfera do seu romance e acrescentando apontamentos de dimensão simbólica: deixando ainda vermelhar a telha francesa das casas abastadas, enquanto os negros telhados dos pobres se somavam já à escuridão que avançava[34]. Uma página depois, Ferreira de Castro insiste na recriação deste clima soturno, tão escuro como o das personagens que está a criar: O lusco-fusco apardaçara toda a terra, desde o vale às cristas das Penhas Douradas. Dir-se-ia que uma poalha escura e flutuante envolvia tudo, as casas dos homens e os fojos dos lobos, nos declives abruptos, e se apossava do próprio céu (p.18).

Depois de descrever os casebres da aldeia e a pobreza dos seus habitantes, contrastando com a casa e a abastança do Padre Barradas, ou do pequeno proprietário Valadares, Ferreira de Castro narra a discussões de Horácio com sua mãe Gertrudes e seu pai Joaquim, quando lhes anunciou que não mais queria guardar os rebanhos do Valadares, porque nunca conseguiria, se continuasse a trabalhar para ele, construir a casa com que sonhava para se abrigar com a sua futura mulher e com os filhos que nascessem. Horácio, apesar de ter sofrido alguma influência anticlerical na tropa, da parte do recruta Jangada, decide pedir a intervenção do Padre Barradas junto do senhor Martins para que lhe arranje um lugar de aprendiz na fábrica da Covilhã. O Padre faz-lhe a apologia da vida pastoril evocando os poetas antigos, que tinham razão ao cantarem a bonita vida dos pastores (p.33). Porém, Horácio porfia no seu projecto, pois sempre ouvira dizer que a indústria da Covilhã era muito mais importante do que a de Manteigas. Lá os teares eram de ferro e muitos teciam fio de estambre; ali eram de pau e só havia fio cardado. Por mor disso, os tecelões da Covilhã ganhavam mais do que os de Manteigas. E talvez o Manuel Peixoto ou o padrinho lhe conseguissem alguma coisa, pois a Covilhã já era uma cidade grande (p.34-35).

Quando Horácio vem à Covilhã à procura de emprego, depois da iniciação citadina durante o serviço militar, a cidadezita serrana, de ruas tortuosas e íngremes, não lhe impunha, agora, aquele acanhamento de homem do mato que ele tinha, perante ela, antes de conhecer Lisboa e o Estoril. A Covilhã parecia-lhe, desta feita, muito mais pequena do que antigamente (p. 35).

A conversa já vai longa demais, eu não tenho o fôlego, nem as capacidades oratórias e políticas de Fidel, e vocês não têm, certamente, a mesma paciência que os cubanos os do que os admiradores que o foram aplaudir a Matosinhos. De qualquer forma, seria pretensioso da minha parte, e seria matéria para mais palestras, requerendo muito mais tempo, resumir e comentar-vos este extenso e caloroso romance sobre estoutras terras frias da Beira Interior.

Estamos na Covilhã, o romance é, ou, pelo menos, deveria ser, bem conhecido aqui. Ficarei ao vosso dispor para conversar sobre ele e sobre o escritor.

A propósito, permitam-me que faça uma sugestão à Câmara Municipal com a intenção de incentivar a leitura, em geral, e em particular de Ferreira de Castro, no sentido de reeditar A Lã e a Neve, pelos seus próprios meios e numa edição barata, e/ou promover a edição de uma monografia contendo excertos do romance e reproduções das capas das edições portuguesas e das traduções, sem esquecer a geografia do romance, isto é os lugares serranos descritos ou evocados. Tais volumes seriam de grande utilidade nas escolas da região.

Para acabar, e deixar tempo para a discussão, e para a música e leitura de excertos, apenas quero acrescentar que Holger Sten, académico dinamarquês, já em 1951, espontaneamente propôs Ferreira de Castro para o Prémio Nobel, como revela, por essa ocasião, numa carta de 23 de Fevereiro desse mesmo ano, endereçada a Roberto Nobre. Holger Sten explicava assim as suas razões: Julgo que a obra dele, além do valor artístico, contém uma mensagem utilíssima para a humanidade de hoje.[35]

Não serei eu que o desdiga ainda hoje, e talvez mais do que nunca, eu que escrevi no Catálogo de uma exposição foto-bibliográfica e documental que organizei em Aveiro para assinalar o Centenário do notável escritor e cidadão exemplar:

Homem modelar, poderia e deveria servir de espelho a gerações rascas ou não, mas que uma certa pestilência ambiental conduz a essa desoladora posição, num tempo em que se vitoriam quase exclusivamente os atiradores do futebol e suas cortes, seus negócios e violências, os políticos lançadores de foguetes em seu próprio louvor, os estilistas dos trapos, os génios da BD, os leitores, ou talvez nem isso, das Selecções do Reader's Digest, para não falar da Caras e quejandas, dos apreciadores de fast food, dos não frequentadores das bibliotecas virtualmente virtuais, tão virtuosas que muitos dos seus atractivos morrem virgens, para não me deter sobre os arregimentados prontos, não se sabe bem para quê, se nem contínuos são nas escolas (onde o facilitismo conduziu ao resultado lastimoso que sabemos e que alguns deploram), nem magalas analfabetos nas paradas dos quartéis (refiro-me obviamente às muletas omnipresentes na linguagem de muito boa gente que não devia falar tão claudicantemente). Que me perdoem este desabafo que poderá parecer passadista e retrógrado, mas ele só na aparência assim poderá ser entendido, pois não ponho em causa nenhuma destas actividades humanas, nas suas melhores vertentes, mas a inversão de valores que as acompanham, a sua sobrevalorização e a apatia intelectual que têm provocado; se isto, sem prazer nenhum escrevo, é por muito melancolicamente pensar no futuro e por, a semelhança do notável escritor, ter esperanças voluntaristas, mas sem ilusões, por entender que Ferreira de Castro poderia servir de antídoto contra muitos dos actuais e omnipresentes anestesiantes, quer sejam políticos, financeiros ou mediáticos.

Ferreira de Castro queria ler e não tinha dinheiro para livros; outros jovens têm-no, talvez em demasia, e não podem ver livros sem enfado ou sono, quando não ostensivo desprezo. O dinheiro que alguns gastam a rodos serve quase exclusivamente para comprar luxuosos trapos de marca, carros rutilantes, alpercatas com "griffe", copos sem fundo e outros ópios mais perigosos, etc. Nesta era de consumismo desenfreado, do ser preterido em favor do parecer e do ter e do estar, de gorda despolitização, de magro civismo, de fracos escrúpulos, de esquelética moral, que inculca na juventude, e não só, o gosto alienado pela sociedade do espectáculo – que aniquila a informação e a reflexão – pelo sensacionalismo, pela brutalidade, pelo narcisismo, pela frivolidade, pela leveza, pelo cálculo egoista, pelo carreirismo maquiavélico, num tempo em que parece haver muito pouco por que lutar, por estar para muitos garantido o essencial, neste tempo e neste país, ler a obra e conhecer a vida de Ferreira de Castro talvez não fosse só ociosa ocupação.

A carapuça não serve evidentemente para todas as cabeças, mas são numerosas demais aquelas que a podem enfiar. Mas o discurso e a diatribe já vão longuíssimos para estes tempos de fast reading, de fast thinking, que aceita, cada vez mais, quase exclusivamente o que está condensado, digerido, digest, até chegar mesmo a perder a sua substancia. Prontos. Estou catalogado. Tant pis, tanto faz, ou tant mieux; para bom entendedor...

Decididamente eu não tenho jeito nenhum para discursos edificantes. Imperfeito texto – em todos os sentidos, incluindo o manuelino – onde me levaste![36]


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[1]  Texto de uma conferência proferida no Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã, em 1998, no dia das Festas da Cidade, precedendo a inauguração nos Paços do Concelho  da Exposição Fotobiográfica sobre Ferreira de Castro,  organizada pelo Grupo Desportivo e Cultural de Ossela, patente  nos Paços do Concelho da cidade serrana que serve de tela de fundo ao romance do escritor

[18] Id., ibid.

[19] Id., ibid.

[20] Id., ibid.

[21] Id., ibid

[22] Id., ibid

[23] Álvaro Salema, "Ferreira de Castro. Uma Vida e uma Obra", Introdução a Obras de Ferreira de Castro / A Lã e a Neve, vol. I, 4.ª Edição, 1984, Lello & Irmão – Editores, p. XXVI e XXVII.

[24] Ver Pedro Calheiros, "Uma bela e sólida ponte entre o Naturalismo e o Neo-Realismo", in Folhas 3. Letras & Outros Ofícios, Aveiro, Grupo Poético de Aveiro, 1998 (número especialmente consagrado ao Centenário do Nascimento de Ferreira de Castro) p.49-50.

[25] Id., ibid. p.58.

[26] Id., ibid. p. 51-52.

[27] Id., ibid. p. 52-53.

[28] Id., ibid. p. 55-56.

[29] Óscar Lopes, "A Contemporaneidade Histórico-Literária Portuguesa", in Vária escrita, n.° 3, Sintra, 1966, p. 104 e 108.

[30] Id., ibid, p. 101.

[31] Cecília Sacramento, "Testemunho", in Centenário do Nascimento de Ferreira de Castro, Catálogo da Exposição Foto-Bibliográfica e Documental, Recolha, selecção e montagem dos materiais, Introdução e Notas do Comissário da exposição, Pedro Calheiros, Aveiro, Câmara Municipal de Aveiro, 1998, p. 41.

[32] Id., ibid, p. 45.

[33] Id., ibid. p. 50-51.

[34] A partir daqui, indicarei no corpo do trabalho, apenas o número da página entre parênteses da edição que passarei a citar e que é a seguinte: Obras de Ferreira de Castro / A Lã e a Neve, vol. III, 4.ª Edição, 1984, Lello & Irmão, Editores, p. 17.

[35] 100 Cartas a Ferreira de Castro, Selecção, Apresentação e Notas de Ricardo António Alves, 1992, Câmara Municipal de Sintra / Gabinete de Estudos Históricos e Documentais / Museu Ferreira de Castro, p. 224-225.

[36] Pedro Calheiros, “Relembrando Ferreira de Castro no Centenário do Seu Nascimento”, in Centenário do Nascimento de Ferreira de Castro, Catálogo da Exposição Foto-Bibliográfica e Documental, Recolha, selecção e montagem dos materiais, Introdução e Notas do Comissário da exposição, Pedro Calheiros, Aveiro, Câmara Municipal de Aveiro, 1998, p. 17-18.

 

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