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Pelas
suas qualidades, ainda se não escreveu romance sobre as coisas do Amazonas com
a precisão, a clareza, elegância, riqueza de detalhes, simpatia e realidade,
como esse que foi a vida estuante,
iluminada e inquieta, do ilustre
escritor português.
Não
se lhe pode negar o característico de obra-prima sobre a nossa terra.
Realmente, para escrevê-lo, embora se demorassem 1ongos anos nas leituras dos
gabinetes e das bibliotecas, teria sido necessário o
contacto directo com a natureza para o
produzir, nenhuma das suas cenas seria possível sem o auxilio prestimoso da memória,
desenhos que somente se animassem no claro-escuro de uma saudade amargurada e
dolorida, cuja intimidade fosse, ao mesmo tempo, a impressão desafogada de uma
recordação redentora do passado.
A
figura principal do livro é um jovem português chamado Alberto, estudante de
Direito, refugiado político, rapaz culto e cheio de ilusões.
Em face das adversidades da vida, veio
para Belém, onde morava um tio, dono de hotel, que o acolheu durante dois
meses, à espera de emprego.
Certo
dia, fugidos alguns cearenses de uma leva de retirantes, o parente hoteleiro
Lembrou-se de o incluir em uma das vagas. Tanto fez com que ele se dirigisse
para o seringal Paraíso, no Rio Madeira, acima de Humaitá. Alberto viera na
terceira classe de um gaiola, o «Justo Chermont», que o desembarcou no porto
do seringal.
Ai
chegando, leve a mesma sorte de todos os seringueiros. Deram-lhe uma «colocação»
no centro, a alguns dias de viagem de mata a dentro. Mas o acaso lhe foi, de
certa forma, favorável, pois o seu companheiro de barraca, Firmino, homem rude,
era um temperamento eminentemente brasileiro, que se dedicou à amizade do
português. Auxiliava-o em tudo. Era o seu amigo naquela solidão.
Decorre,
então, a parte mais interessante do romance, isto é, a crónica da nossa vida.
Sob
esse ponto de vista, não há detalhe que lhe tenha escapado - a flora, a fauna,
o homem, a natureza, no que ela tem de mais agreste, sem um lance amoroso, sem a
ternura feminina de uma história romanesca.
Mas
esse livro não tem exageros. Foi sentido com uma profunda ternura humana, foi
vivido com o coração e com a alma. Por isso mesmo, é amargamente verdadeiro,
sem que se lhe encontre entre as páginas nenhum intuito de deprimir a terra, ou
de a malsinar.
O
seu traço psicológico é um contraste todo espiritual, que se distingue na
autobiografia do herói, na desproporção entre o ambiente e os predicados de
cultura, trazidos no seu alforge sentimental de emigrado político, rapaz de
estudos e de posição elevada, na sua terra distante.
Ao
chegar ao seringal, porém, as suas credenciais se resumiam à aparência
tratada do seu físico, à teimosa encenação do colarinho e do colete, que
outras não lhe poderiam ter sido percebidas, nem interpretadas favoravelmente,
pelo concurso ordinário das circunstâncias, incluído, como estava, entre os
desgarrados da sorte, naquele barranco de ambições imediatas, que era qualquer
dos seringais antigos, instalações provisórias e passageiras, mal servindo à
satisfação presente das necessidades mais exigentes.
Como
crónica de costumes, o livro reflecte o ambiente amazónico. É perfeito. Páginas
maravilhosas, não houve fenômeno da natureza regional, que ali se esquecesse,
incidente por mais insignificante, que se não registasse, não com a preocupação
de os desvirtuar, antes como simples circunstâncias ocasionais de sua peregrinação.
A
tempestade na floresta é uma página inesquecível. O colóquio com a cataleia,
amorosamente colhida, com o seu poder sugestivo, tem a palpitação duma cena
primorosa, de uma delicadeza própria de Garrett, quase diríamos capaz de
revelar o segredo emocional de uma vida estranha, tamanha a sensibilidade artística
de quem a traçou, proporcionada, melancólica, quase desesperada, com o sentido
interpretativo da impotência humana em face dessas revelações.
A
leitura desse livro se faz duma assentada. Mas o seu intuito é outro, não foi
o de descrever a natureza amazónica, que figura como simples moldura nesse
quadro de ternura e de saudade, de enlevo em face da terra e de nostalgia,
amarga esperança sempre alimentada na sua intimidade emocional.
Aquele
companheiro de barraca, o sertanejo Firmino, prestante e serviçal, falou-lhe ao
coração. Ele era o Brasil, a sua generosidade, a sua dedicação, o prestimoso
amparo, somente avaliado em toda a sua extensão quando conhecido nas horas
tristes do desespero, do isolamento na selva prodigiosa e muda.
Não
foi este, porém, o único perfil traçado com essa intenção. O próprio Juca
Tristão, o dono do seringal, naturalmente rude e áspero, apresenta-se sob
modalidades muito atenuadas, condescendente algumas vezes, tolerante outras.
Naquele
ambiente do interior, onde se contavam as mulheres em desproporção alarmante
com o número dos homens, realizaram-se festas, que são descritas com o detalhe
possível, mas sem deixar perceber
que ali tivesse havido alguma coisa de anormal. Na sua promiscuidade de ambições,
o meio é apresentado com as tintas honestas de um centro de relativa civilização.
Todas as suas figuras femininas são respeitáveis, agitam-se com uma certa auréola
de virtude, passam pelas páginas do livro sem despertar suspeitas, nem maledicências...
O
emigrado político, o estudante de Direito, rapaz culto, veio para o Brasil,
onde encontrou os derradeiros vestígios deslumbradores de um final de comédia
grandiosa. Foi seringueiro, trabalhando na mata, surpreendeu-lhe os encantos,
sentindo toda a grande extensão da sua beleza. No final dessa epopeia, depois
que o patrão do seringal, esse bondoso e paradoxal Juca Tristão, lhe dispensou
o resto da conta, quando ele se foi
de volta para a pátria distante,
verificou o «saldos desse longo e penoso trabalho, o resultado maravilhoso
dessa demorada experiência – e foi o livro do Amazonas, o romance da selva
agreste e bela, que se retoca sempre e é cada vez mais encantadora.
Para
um grande espírito, como o Sr. Ferreira de Castro, esse «saldo» deve ter sido
mais grato e mais compensador do que se ele tivesse deslumbrado os seus com a
refulgência metálica de alguns dobrões de ouro.
E
foi melhor que assim tivesse acontecido. Recebendo-o como dádiva da natureza,
em que tanto o seu espírito se havia martirizado, devolveu-o integralmente à
terra, tecendo-lhe o panegírico, que são páginas perfeitas de amizade e de
gratidão.
Apesar
de termos conhecido grandes escritores, que aqui conviveram, escrevendo páginas
maravilhosas sobre o Amazonas, nenhum dos muitos, dos muitíssimos livros
publicados sobre esta vida reuniu todos os seus motivos de encantamento, as suas
torturas, as angústias e mágoas, como esse romance do escritor português que
é a crónica sincera e palpitante da sua realidade.
Esse
livro merece ser estimado entre os melhores da nossa gratidão. É o romance do
Amazonas, o poema de suas belezas, o cântico das tristezas profundas, que
transfiguram a fisionomia, enchendo a floresta de uma esquisita animação de
sombras e
fulgurações.
(In O Jornal, de Manaus.)
Obras de Ferreira de Castro, vol. I. Porto: Lello & Irmão, Editores, 1977, pp. 547-9.
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