![]()
PÓRTICO
(Actualização e revisão do PÓRTICO da primeira edição, provavelmente em uso desde a terceira edição até à versão muito mais reduzida, utilizada a partir da Edição Comemorativa dos 25 anos do romance, 1955)
![]()
É
bem certo que conduzimos ao longo da vida muitos cadáveres de nós próprios. Não
somos hoje o total que fomos ontem, nem teremos amanhã, integralmente, o nosso
mundo de agora. Eu sinto isto muitas vezes, num apelo ao meu «eu» de outrora,
numa busca minuciosa entre os escombros do que fui e os pilares que ficaram de pé,
a sustentar o que sou. Mas só a memória responde. Com ela, agora e logo,
ressuscita também um longínquo estado da sensibilidade, um pormenor que não
teve valia momentânea, mas que ficou em relevo, com a sua luz própria e o seu
verdadeiro aspecto.
Quando
um final de infância agitado me levou ao Amazonas, a minha aldeia nativa, aqui,
em Portugal, de tão distante e envolta em nostalgia, parecia-me uma ilusão. Só
os carimbos das cartas recebidas me traziam a certeza de que não fora apenas
sonho a minha vida até esse momento —
de que o berço existia, florido, atraente, para além da selva, para lá do
Atlântico.
Hoje,
dá-se o inverso. Muitas vezes, ao evocar a minha estadia na plaga ardente,
pergunto, duvidoso, a mim próprio:
—
Mas eu, de facto, estive lá ?
Está
nítido na minha retina o panorama soberbo, está
nítida no meu espírito a vida miserável, mas tudo isso me parece visto e
vivido numa outra encarnação. Não é, porém, assim. Estão aqui,
amarelecidos pelo tempo, os papéis onde tracei as minhas impressões de
adolescente — as
minhas primeiras impressões ante o mundo novo, bárbaro e assombroso, que se me
revelava.
Sim,
fui eu...
A
minha vida tem andado cheia deste pesadelo. Esqueço-me de mim, mas não me
esqueço da selva. Dominou-me com o seu mistério e com a sua soberania; não a
evoco sem um estremecimento de pavor. Cá a tenho, cá a tenho a romper o
optimismo com que procuro cobrir, para menor sofrimento, o pessimismo e a
morbidez que ela me deu. Luto, engolfo-me na ilusão, ludibrio a mim mesmo, mas
não consigo iluminar os recantos sombrios que trago cá dentro e onde, como nos
da selva, não entra jamais o sol da alegria.
Eu
devia este livro a essa Amazónia longínqua e enigmática, pelo muito que fez
sofrer os primeiros anos da minha adolescência e pela coragem que me deu para o
resto da vida. E devia-o, sobretudo, aos anónimos desbravadores, gente humilde
que me antecedeu ou acompanhou na brenha, gente sem crónica definitiva, que â
extracção da borracha entrega a sua fome, a sua liberdade e a sua existência.
Livro bárbaro, como a
vida que enquadra, como o cenário que lhe serve de fundo, ele completa em
muitos pontos, â margem do entrecho, o meu romance «Emigrantes».
Num,
a paisagem ridente do Sul do Brasil; noutro, a paisagem majestosa do norte. Em
«Emigrantes», o exílio pelo estômago; neste, o desterro pelo espírito, E
nos dois, a uni-los indissoluvelmente, a luta pela vida, a conquista do pão, a
miragem do oiro — um
oiro negro que é miséria, sofrimento e quimera com que os pobres se enganam. E
há mais, muitos mais laços íntimos que seria puerilidade abrir aqui.
Só
alguns meses após a sua publicação, * Emigrantes* encontrou no Brasil a
hospitalidade devida a mensageiro imparcial, alheio aos preconceitos que separam
os homens. De inicio, teve todas as excomunhões: duns, porque não o haviam
lido e curavam pelo que se dizia; doutros, porque viram os textos falsificados
para êxitos jornalísticos de circunstância. Amigo modesto, mas sincero, do
Brasil, pelas minhas ideias de homem indiferente a prejuízos de raças e porque
amo nele muito do meu passado, sofri ao ver mal interpretada a intenção da
obra.
Em
breve, porém, a verdade conquistou espontâneo e eminente paladino em Humberto
de Campos, escritor que eu não conhecia pessoalmente, a quem não
tinha, sequer, oferecido o livro, mas que o soube ler, que leu só o
que lá estava, ao contrário de muitos outros que contra ele escreveram.
«A
Selva» já não levantou igual ondulação e, graças ainda a Humberto de
Campos, cujo nome desejo ligar, fraternalmente, a estas páginas, encontrou,
pouco tempo depois de publicada, uma atmosfera carinhosa, quer nos meios
intelectuais, quer no resto da população do grande pais.
Tinha-se
compreendido, finalmente, que ao farfalhar do patriotismo, venha do norte ou do
sul, da Europa ou da América, se sobrepõe sempre, no meu espírito, uma causa
mais forte, uma razão maior: a da Humanidade. A razão deste livro. Deste livro
que é um curto capitulo da obra que há-de registar o sofrimento dos humildes
através dos séculos, em busca de pão e de justiça.
A
luta de cearenses e maranhenses na floresta amazónica é uma epopeia assombrosa
de que não ajuíza quem, no resto do Mundo, se deixa conduzir, veloz e
comodamente, num automóvel com rodas de borracha —
da borracha que esses homens tiram â selva misteriosa e implacável...
![]()