Pedro Calheiros 

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A Lã e a Neve:

testemunho corajoso sobre homens ousados[1]

 

1. – A Covilhã e a Serra da Estrela a caminho do mundo.

 

Em 1945-1946, já depois de ter concedido uma entrevista ao Diário de Lisboa, de larga repercussão, na qual declarava a sua adesão ao movimento democrático que queria tirar o país do marasmo político, social e económico em que este se encontrava, tendo também atacado a Censura a que estava sujeita a imprensa e a edição livreira, Ferreira de Castro veio até á Serra da Estrela várias vezes, tendo-se demorado por cá o tempo necessário para recolher elementos para o romance A Lã e a Neve, testemunho ousado e vigoroso sobre homens corajosos, e outros nem tanto, e até cobardes, injustos e maldosos, nesse tempo de ditadura feroz. Em Junho de 1945 está instalado no Hotel Neve, como se pode ver pela carta que escreveu para o seu grande amigo Roberto Nobre, a quem pedia que lhe enviasse para esse estabelecimento hoteleiro os horários do caminho de ferro desta vila[2].

  Ainda em 1945, Ferreira de Castro publicou na Vértice um texto muito significativamente intitulado "A Pele sem Lã", excerto do futuro romance A Lã e a Neve, que só será editado dois anos mais tarde[3].

  Ferreira de Castro utilizava o método que o autor de Le Roman Expérimental usou para escrever, por exemplo, Germinal, descendo ao fundo das minas de Montsou, em Anzin, para sentir idênticas dificuldades às que sentiam os mineiros e ver com seus próprios olhos a miséria em que viviam, ou viajando na locomotiva do combóio Paris-Le Havre, para preparar a redacção de La Bête Humaine, para não falar das viagens de recolha de dados para os romances da série Les Trois Villes – no que diz respeito a Rome ou Lourdes. O neo-realista Redol, a quem Ferreira de Castro abriu o caminho, vai recorrer ao mesmo método em muitos dos seus romances e, muito particularmente, no Ciclo Port-Wine, escrito entre 1949 e 1953, desde o primeiro, Horizonte Cerrado até ao terceiro, Vindima de Sangue, com Os Homens e as Sombras de permeio (1951), nos quais o grande escritor vilafranquense se pôs, como Ferreira de Castro, ao lado dos humilhados e ofendidos, num processo de solidariedade concreta, na partilha do dia a dia, ou na denúncia das injustiças e violências que sofriam os homens a quem até a dignidade era recusada.

   

1.1. – As capas das traduções – imagens múltiplas da Covilhã.

 

O romance-reportagem sobre os pastores da Serra da Estrela e os tecelões da Covilhã foi publicado em 1947, com uma capa de Jorge Barradas, na qual um atento pastor guarda um pachorrento rebanho diante de uma negra muralha rochosa, espelhada, aqui e ali, pela neve que a cobre parcialmente e, sobretudo, na sua base e no socalco pedregoso, onde está de atalaia o pastor com seu típico cajado e seus tradicionais abrigos laníferos; ora, uma das mais fortes denúncias do romance é aquela que retrata pobres operários e idosos sem recursos morrendo de frio e minados por doenças sem remissão, por falta de meios para se curarem e se protegerem das violentas condições climáticas da Covilhã no Inverno, sem lã para se cobrirem, eles, que perderam a pouco e pouco as forças e a saúde para trabalharem os lanifícios que faziam a prosperidade dos seus patrões e o conforto de tanta gente, a milhares e milhares de quilómetros.

  Parece um mistério A Lã e a Neve, como de resto também Eternidade, não terem sido proibidos pela Censura. Olhe-se para a excelente capa da tradução flamenga do romance, publicada em Gand, em 1954, ilustrada por Sharp com uma fidelíssima leitura do romance, o que muito deve ter irritado os esbirros da censura e da polícia política portuguesas, e outros beleguins do regime ditatorial. Nessa capa vemos três homens sem rosto, a meio corpo, só a parte de baixo é visível – dois guardas de pesadas e sinistras botas e um preso algemado e encadeado a um dos guardas – a atravessarem uma praça, projectando sombras assustadoras, num fundo onde sobressaem, na frente de instalações fabris, manifestantes empunhando bandeiras vermelhas. Não deve ser por acaso – e seria útil estudar-se com o devido cuidado esse aspecto da questão, consultando os arquivos da censura e da Pide, e a imprensa da época, bem como a correspondência inédita do autor de A Lã e a Neve – que a capa de Jorge Barradas para a primeira edição tem algo de remansoso e de bucólico, apesar dos penedos gigantescos e escuros, e da neve que cerca o pastor com seu rebanho. É óbvio que publicar-se o romance com uma capa como a da edição flamenga não teria sido possível em Portugal, naqueles tempos de controle apertado das consciências e da expressão do pensamento.

 

A capa da primeira edição brasileira da autoria de Perey Deane, publicada em 1954, mostra uma paisagem coberta de neve, montes e casas ao fundo na serra, e, em primeiro plano, o telhado sem neve e a enorme, negra e letal chaminé de uma fábrica maculando com seu fumo o céu azul, fumo tanto mais impuro quanto a alvura da neve lhe acentua a natureza mortífera.

 

 

 

 

A capa da edição checa (1952) ostenta no seu centro uma pequena gravura com uma imagem de um tecelão trabalhando no seu tear.

 

O rosto da edição húngara (1952) dá a ver uma aguarela bucólica, um pouco à maneira das recriações lisboetas de Carlos Botelho ou de Bernardo Marques, na qual se estampa uma aldeia colorida e amena com seus verdejantes quintais.

 

 

 

 

 

A editora italiana optou por uma ilustração da capa a condizer com o título da tradução italiana, Uomini come noi, na qual um pobre homem sem feições bem definidas avança carregado com o seu magro saquitel às costas.

 

 

 

 

 

 

 

1. 2 – O sucesso em Portugal – as numerosas reedições.

 

A Lã e a Neve obteve imediatamente um grande sucesso quando da sua primeira publicação em 1947. Dois anos depois, em Junho de 1949 o romance estava já na 5.ª edição, publicada ainda com a sua capa inicial, na qual a neve é o único tema ilustrado. Dois anos volvidos, em 1951, o romance sai em  6.ª edição, tendo atingido a tiragem de 21 000 exemplares. Passados outros quatro anos, em 1955, sai a 7.ª edição, com uma nova capa de Bernardo Marques, subindo a tiragem para os 25 000 exemplares. Em 1979, o romance já estava na 13.ª edição, tendo a tiragem galgado para os 50 000 exemplares. Em 1990, a Guimarães, a editora de sempre de Ferreira de Castro, dá à estampa a 15.ª edição, cuja tiragem já vai nos 57 000 exemplares.

 

A estes números devem adicionar-se os exemplares das três edições das Obras Completas de Ferreira de Castro, publicadas, a primeira pela Guimarães, a segunda pela Lello & Irmão, e a terceira pelo Círculo de Leitores, o que evidentemente assegurou, como se sabe, uma vasta difusão às obras do escritor osselense. A Lã e a Neve constitui o II.° volume das Obras Completas de Ferreira de Castro, publicadas a partir de 1949 pela Guimarães, tendo este romance saído nesta série ainda em 1949, com ilustrações de Lino António e Molina Sanchez. Em 1961 completa-se também uma edição brasileira das Obras Completas que Ferreira de Castro publicara até então.

Em 1975, já o escritor tinha falecido, pouco depois de ver, por curto espaço de tempo, Portugal recuperar a liberdade por que ele tanto aspirava e por que tanto combatera; em 1975, dizia, a Lello publica uma edição em papel bíblia, cuja preparação iniciara no ano anterior, ainda em vida do escritor, e na continuação dos festejos do 75.° Aniversário, amplamente celebrado em Portugal e no Brasil; aqui particularmente na Sociedade Nacional de Belas-Artes; no país de A Selva, pela Academia Brasileira de Letras e pelas autoridades federais e estaduais, que infelizmente não puderam contar com a presença do escritor, como pretendiam. Razões de saúde impediram também que Ferreira de Castro assistisse às homenagens que de vários quadrantes lhe eram feitas.

Da publicação das Obras de Ferreira de Castro em papel bíblia, da Lello, em 1984, já a editora portuense difundia uma 4.ª edição. A Lã e a Neve saiu no terceiro volume, com um óleo no pórtico, intitulado "Pastor da Serra da Estrela", de Arlindo Vicente. Este ilustrador, advogado e pintor, foi convidado pela  Oposição a candidatar-se às eleições para a Presidência da República, em 1958, precisamente porque não houve meio de convencer Ferreira de Castro a aceitar ser ele o candidato das forças de esquerda nessas eleições, que o General Delgado ganhou, ou ia ganhando, por ter sido ele finalmente o candidato único da Oposição, depois da desistência de Arlindo Vicente em seu favor.

 

O Circulo de Leitores fez igualmente uma edição das Obras Completas de Ferreira de Castro, em 1985, tendo A Lã e a Neve constituído o 6.° volume da publicação[4].

É certamente este sucesso ímpar na literatura portuguesa do seu tempo, e também a nível mundial, juntamente com o estatuto de intocável, que por essa via o escritor tinha alcançado, que explicam, em parte, que o romance não tivesse sido proibido. Mesmo assim, continuo perplexo diante da publicação repetida de sucessivas edições da obra. Talvez o regime, com bastante pragmatismo e conhecimento dos mecanismos do sucesso artístico, e de todo o sucesso político ou mediático, tenha achado que era a melhor forma de não contribuir ainda mais para o incremento dessa irradiação nacional e internacional. Como maus católicos que eram, ou como bons que diziam ser, sabiam por demais que o fruto proibido é o mais apetecido.

A publicação de Eternidade também me provoca uma boa dose de espanto, mas o conteúdo e o significado paradigmático de A Lã e a Neve aumenta, e de que maneira, o leque das perplexidades.

 

1. 4. – O sucesso no estrangeiro – as múltiplas traduções.

 

A aceitação internacional da obra de Ferreira de Castro é com certeza a chave do mistério. Ferreira de Castro foi de algum modo o nosso Soljenitsyne, denunciando internacionalmente a repressão e a miséria impostas ao povo português. Podia, como pode Saramago, hoje ainda mais do que ontem, gritar bem alto e com toda a enérgica calma e valente coragem necessárias o que lhe ia na alma.

Ferreira de Castro não chegou a ganhar o Prémio Nobel, apesar de ter sido proposto várias vezes para a concessão do galardão, juntamente com Jorge Amado. Talvez por isso mesmo – dada a dificuldade da escolha – e por muitas outras razões impossíveis de evocar aqui, mas também porque a Academia ainda não tinha despertado completamente para as literaturas lusófonas, Ferreira de Castro não chegou a trazer-nos o Nobel que tanto merecia, e que igualmente teria feito justiça à literatura portuguesa, bem mais cedo do que aconteceu e era devido.

Mas Ferreira de Castro obteve outros altos galardões e o maior deles todos foi o público imenso que despertou para as realidades políticas, sociais e literárias portuguesas, ganhando uma dimensão universal que mais nenhum escritor português antes dele lograra alcançar.

De qualquer forma, isto de Prémios é bem relativo. Na primeira edição do Prémio, há já quase um século, ganhou Sully Prudhomme, que hoje quase ninguém conhece – e não se perde imensamente com isso. Estavam, porém, vivos muitos escritores que o teriam merecido mais, de Tolstoï a Zola, para não Falar de Machado de Assis ou de outros. É certo que as obras do genial criador das Memórias Póstumas de Brás Cubas, ou de Dom Casmurro, não tinham a divulgação internacional que o permitisse. Porém quando o grande romancista brasileiro faleceu, foi Anatole France que fez o seu elogio numa sessão solene de homenagem na Sorbonne.

Mas voltemos ao nosso rebanho – à nos moutons, como dizem os franceses – e aqui a expressão faz sentido porque estamos discorrendo sobre A Lã e a Neve.

No campo das traduções o sucesso não foi menor do que aquele obtido com as sucessivas edições portuguesas – tanto mais de espantar quando se pensa na fraquíssima taxa de alfabetização do país, infeliz recorde igual a muitos outros a que os portugueses tiveram de se habituar. Por isso é importante que se tenha uma ideia mais exacta e quantificada desse extraordinário acolhimento.

O romance covilhanense de Ferreira de Castro foi dos mais traduzidos, logo a seguir às múltiplas versões de A Selva, levando bem longe imagens desta cidade e da luta dos seus operários tecelões por um pouco mais de justiça social, de liberdade e de fraternidade.

Fm França, por exemplo, com o título Les Brebis du Seigneur saíram num só ano, em 1950, nada menos que três edições publicadas por três editores diferentes. A primeira foi estampada pelas edições Denoël, com um prefácio de Henry Poulaille, numa versão de Louise Delapierre, constituindo a tiragem original. Nesse mesmo ano o editor Pierre Horay mandou imprimir mais 3 126 exemplares da tradução de A Lã e a Neve, que foi objecto, nesse ano ainda, de mais uma tiragem de 3 000 exemplares, com a estampilha do Club Français du Livre. Seis anos mais tarde, em 1956, portanto, outro clube, o Club des Libraires de France, mandava imprimir mais 4 150 exemplares de Les Brebis du Seigneur, ilustrado com duas fotografias fornecidas pela importante e exigente agência Magnum Photo, sendo uma delas do célebre Henri Cartier-Bresson[5]. Um ano antes, em 1955, as edições Gründ de Paris haviam incluído na sua selecção de textos para a infância, intitulada Il Était une Fois... 80 contes de tous les temps et de tous les pays, um excerto de A Lã e a Neve, adaptado para as crianças por Henry Poulaille, contendo o impressionante episódio da tempestade na neve, que saiu nesta recolha com o título "Dans la Tempête de Neige", ao lado de textos de Dickens, Oscar Wilde, Mark Twain, Andersen, Irmãos Grimm, Vítor Hugo, Dumas, Nerval, Mérimée, George Sand, Gautier, Maupassant, Goethe ou Tolstoï, entre muitos outros de grande nomeada. Como se vê Ferreira de Castro esteve em muito boa, excelente companhia e foi parar às mãos do público mais facilmente que pode deixar-se galvanizar pelas leituras que o empolgam.

A Radio France transmitiu, em tempos, uma adaptação radiofónica de A Lã e a Neve, tendo andado aqui pela Serra da Estrela uma equipa técnica a gravar o som dos chocalhos das ovelhas e a recolher músicas folclóricas do Barroso, como lembra Elena Muriel, a viúva do insigne escritor, numa entrevista que concedeu, em 11 de Agosto de 1985, ao Diário de Notícias, publicada num destacável de cinco páginas desse jornal lisboeta.

Não vos vou cansar muito mais com dados editoriais, mesmo se eles mais do que outras considerações poderão dar a melhor medida da irradiação universal da obra de Ferreira de Castro. Acrescento apenas, antes de passar a outros aspectos da recepção da obra, que A Lã e a Neve, além da difusão brasileira – primeira edição brasileira, em 1954, na colecção "Romances do Povo" dirigida por Jorge Amado[6] –, também foi traduzida na Alemanha, na Argentina, na Bélgica – em francês e em flamengo –, na antiga Checoslováquia, – em checo em 1952, com um texto introdutório de Jorge Amado, numa tiragem de 6 600 exemplares, e em eslovaco –, na Hungria – no mesmo ano de 1952, em que saiu a tradução checa, numa tiragem de 5000 exemplares, tendo sido feita uma nova edição de mais 5 000 exemplares, três anos depois, em 1955. Ainda na Hungria, mais três anos depois, sai nova edição, em dois volumes, com uma tiragem de 30 000 exemplares, contendo o segundo volume, no Fim, uma biografia de Ferreira de Castro por Jorge Amado, tendo saído uma outra edição do mesmo romance em 1974. Houve ainda traduções em Itália, já em 1960, com o bonito título Uomini come noi, na Roménia, em 1955, com uma tiragem de 10100 exemplares, na antiga União soviética, etc[7].

Os números e datas podem maçar, mas só eles verdadeiramente podem fazer aquilatar da extraordinária recepção que tiveram as obras de Ferreira de Castro. Só eles melhor conseguirão transmitir uma pequena ideia aos que hoje não podem dar-se conta do impacto formidável que teve a sua obra – tal o silêncio injusto e mal intencionado que se fez á sua volta. Estes dados de tabelião podem também ajudar a relembrar o fulgor desse tremendo sucesso aos que o testemunharam, mas sem terem à mão dados precisos que alimentem essas impressões.

 

1.5 – O excelente acolhimento da crítica.

 

  O levantamento da recepção crítica – que seria interessante mas fastidioso para apresentar aqui, além de ser tarefa dificílima para cumprir exaustivamente, tal a larguíssima difusão que teve A Lã e a Neve, – é um trabalho que poderá ser objecto de teses de mestrado ou doutoramento, que poderão vir a ser realizadas por covilhanenses interessados em estudar a imagem desta cidade que circulou pelo mundo fora. Bem ficará à autarquia e à Universidade da Beira Interior que encorajem e estimulem, de vários modos, esses estudos por fazer, assim como a análise do campo referencial utilizado por Ferreira de Castro e do tratamento que lhe deu, da paisagem ao meio urbano e aldeão, do ambiente fabril ás associações operárias ou à classe patronal.

Por ora, com o intuito de mostrar o apreço que a obra de Ferreira de Castro merecia da parte dos seus colegas, em particular no que diz respeito a A Lã e a Neve, e na impossibilidade de sequer tentar esboçar aqui o acolhimento crítico feito ao romance no nosso país e no estrangeiro, contentemo-nos com apenas alguns depoimentos.

Vejamos, em primeiro lugar, aquele que foi escrito por Fidelino de Figueiredo –no próprio ano da publicação do romance, em carta endereçada ao autor da obra, em 5 de Abril de 1947 – a quem Ferreira de Castro tinha enviado um exemplar. O universitário e antigo director da Biblioteca Nacional nos tempos da 1ª República, felicitando o autor de A Lã e a Neve, confessa-lhe que o romance teve direitos especiais à [sua] atenção amiga e junta ao agradecimento as suas calorosas, felicitações. Explicando os seus motivos, Fidelino de Figueiredo escreve:

A Lã e a Neve reconstitui-nos o cerco da miséria, injustiça e impossibilidade q. abafa a iniciativa do homem de boa vontade, como aquele pobre Horácio. O meio da tecelagem da serra é, em miniatura, toda a vida portuguesa, na sua imobilidade, comenta Fidelino de Figueiredo, explanando a seguir: O pobre pastor, havendo aberto um pouco os olhos no serviço militar, na capital, mais sentiu a miséria do seu destino e concebeu o sonho maravilhoso, irrealizável em Portugal, de ter uma casa «com latrina»... O q. foi a luta por essa fantasia inverosímil conta-no-lo o seu romance com mestria, fazendo entrar fundamente [?] na vida pastoril, na vida fabril e nos bastidores da vida proletária. O seu livro, prossegue Fidelino de Figueiredo, tem interesse etnográfico também. Mas vale sobretudo como um arrazoado eloquentemente demonstrativo das humilhações dos trabalhadores deste país, horridamente passadista, cada vez involuindo para o século XVIII, p.ª  o mundo dos desembargadores e dos capitães-mores[8].

Comparando o romance de Ferreira de Castro com o livro Servidão de Assis Esperança, sobre o qual tece algumas reservas, Fidelino de Figueiredo comenta o estilo de A Lã e a Neve nestes termos:

  O seu é, todo ele, fluentíssimo, com um relevo impressionante de paisagista e também de jornalista q. rapidamente vê e diz o q. vê. M.tos e m.tos parabéns! Vocês, romancistas de preocupações sociais, acrescenta o historiador literário, estão prestando um serviço imenso a esta pobre gente: revelar-lhe a própria miséria e ensiná-la a detestá-la, por impulso de dignidade humana[9].

  Num comentário final, acrescentando um P.S. à sua missiva, Fidelino de Figueiredo escreve:

É curioso notar q. todo o seu livro se move numa atmosfera sóbria [?] de fatalidade sem q. haja nenhum génio do mal, operoso, a intervir. É q. vida é assim, com Marretas, Horácios, Idalinas, pais e mães, Peixotos, etc...[10]

  Mário Dionísio escreveu também a Ferreira de Castro, em 8 de Agosto de 1947, para lhe assegurar que estaria presente, em espírito, na homenagem que um grupo de amigos lhe ia prestar na Costa Nova do Prado. Explicitando as razões que o levam a associar-se à manifestação de admiração e estima que vão fazer ao escritor osselense, Mário Dionísio escreve: Pela sua obra em geral, por A Lã e a Neve em particular e, muito em especial, pela sua atitude de Homem nos anos dramáticos que vivemos[11].

Mário Dionísio aproveita a ocasião para anunciar a Ferreira de Castro que tinha retomado a sua actividade crítica e que tinha escolhido escrever sobre A Lã e a Neve para recomeçar, porque, explica o teórico do neo-realismo, nenhum outro [lh]e ofereceria, a um tempo, tanto interesse de aplauso e de discordância como ele, nenhum outro [lh]e provocaria nes[s]e momento, tanto desejo de escrever sobre literatura como ele. Justificando as suas reservas, o crítico e artista acrescenta: Não sei se toda a gente, como digo no citado artigo, comprenderá este modo de profundamente admirar que é o aplaudir e discordar ao mesmo tempo, este prestar de homenagem que prefere (de longe!) a discussão constante e interessadíssima ao elogio balofo, inútil, quase ofensivo de quem trabalha a sério, ao ambiente de mole aceitação que nos rodeia e prejudica há tantos anos. Comigo é assim. E, consigo, pelo que conheço de si, calculo bem que também assim será, conclui o autor de A Paleta e o Mundo.[12]

Mário Dionísio tinha efectivamente publicado uma recensão elogiosa de A Lã e a Neve, na Vértice, órgão oficial coimbrão dos neo-realistas portugueses, o que explica as reservas que o poeta e ensaísta fez[13].

Quase dez anos mais tarde, em 14 de Março de 1956, a notável escritora Lygia Fagundes Telles, da Academia Brasileira de Letras, agradecia a Ferreira de Castro a dádiva do seu belo, belíssimo livro «A Lã e a Neve», tecendo estas considerações sobre este e outros romances do escritor osselense: Que estilo harmonioso, puro, verdadeira lição da arte de escrever![14] A autora do também belíssimo Ciranda de Pedra acrescentava estes comentários muito elogiosos:

Eu já conhecia dois livros seus, muito divulgados, aliás, aqui no Brasil: «A Tempestade» e «A Selva». Li ambos quando passei o exame vestibular para a Faculdade de Direito, no ano de 1941. E para minha alegria, no exame de Literatura, «caiu» o ponto: «Escritores modernos portugueses». Ah, senhor Ferreira de Castro, sorri então o meu melhor sorriso, respirei fundo e comecei (o exame era oral) a falar no senhor e em Miguel Torga com tamanho entusiasmo e conhecimento de causa, que a banca não teve outra saída: tive distinção... Lerei agora os seus outros livros[15], anuncia Lygia Fagundes Telles, exprimindo todo o seu apreço pelo autor de A Lã e a Neve nestes termos encomiásticos:

Mas quero que saiba desde já, senhor Ferreira de Castro, quanto eu o admiro e como fiquei sensibilizada com sua dedicatória na qual há uma generosa referência ao meu romance «Ciranda de Pedra».

Aliás, continua fervorosamente Lygia Fagundes Telles, remeto-lhe a entrevista anexa para que veja seu nome entre os escritores da minha predilecção; e também para que conheça uma escritora do Brasil, ou melhor, um pouco da vida desta escritora que tão profundamente o admira.[16]

Em França, se Henry Poulaille escrevia no seu Prefácio para a edição de Les Brebis du Seigneur a propósito da arte narrativa de Ferreira de Castro que il n’y aucun artifice livresque chez lui et le seul souci de l'humain est présent, mais sans aucune discontinuité[17], o mesmo crítico não deixou de acrescentar: Et cela est plus rare qu'on ne le croit.

 

(Continua)

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[1]  Texto de uma conferência pronunciada no Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã, em 1998, no dia das Festas da Cidade, precedendo a inauguração nos Paços do Concelho  da Exposição Fotobiográfica sobre Ferreira de Castro,  organizada pelo Grupo Desportivo e Cultural de Ossela, patente  nos Paços do Concelho da cidade serrana que serve de tela de fundo ao romance do escritor

[2]Ferreira de Castro / Roberto Nobre. Correspondência (1922 – 1969), Introdução, Leitura e Notas de Ricardo António Alves, Lisboa, Editorial Notícias / Câmara Municipal de Sintra, [dep. Legal 1994], p. 94-95.

[3] Ferreira de Castro, "A Pele sem Lã", in Vértice, fascículo IV, n°. 17-21, Coimbra, Novembro de 1945, p. 5-13.

 

[4] Museu Ferreira de Castro. Catálogo Bibliográfico. Monografias, Coordenação, organização, indexação e catalogação de Paula Regina Luckhurst, Sintra, Câmara Municipal de Sintra / Gabinete de Estudos Históricos e Documentais, 1994, p. 16, 19 e 20.

[5]  Id., ibid., p. 37.

[6] A editora José Aguilar do Rio de Janeiro, em 1958, inclui no primeiro volume da Obra Completa de Ferreira de Castro, na série portuguesa da Biblioteca Luso-Brasileira, o romance A Lã e a Neve, numa publicação enriquecida com uma Introdução Geral por Jaime Brasil e Notas Preliminares redigidas por prestigiosos intelectuais portugueses, brasileiros e de outras nacionalidades: Humberto de Campos, Afrânio Peixoto, Blaise Cendrars, Huascar de Figueiredo, Matias Arrudão, René Jouglet, Agostinho de Campos, Guedes de Amorim, Alexandre Cabral e Jaime Brasil.

[7]  Sobre estes assuntos consultar o excelente trabalho Museu Ferreira de Castro. Catálogo Bibliográfico. Monografias, Coordenação, organização, indexação e catalogação de Paula Regina Luckhurst, Sintra, Câmara Municipal de Sintra / Gabinete de Estudos Históricos e Documentais, 1994.

[8] 100 Cartas a Ferreira de Castro, Selecção, Apresentação e Notas de Ricardo António Alves, 1992, Câmara Municipal de Sintra / Gabinete de Estudos Históricos e Documentais / Museu Ferreira de Castro, p. 74.

[9]  Id Ibid., p. 74-75.

[10]  Id. Ibid., p. 75.

[11] 100 Cartas a Ferreira de Castro, Selecção, Apresentação e Notas de Ricardo António Alves, 1992, Câmara Municipal de Sintra / Gabinete de Estudos Históricos e Documentais / Museu Ferreira de Castro, p. 78.

[12] Id. Ibid, p.78.

[13]  Mário Dionísio, "A Lã e a Neve por Ferreira de Castro", in Vértice, vol. IV, n.° 47, Coimbra, Agosto de 1947, p.  302-307.

[14] Op. cit. p. 151.

[15] Op. cit, p. 151.

[16] Op. cit, p. 151.

[17] Henry Poulaille, "Préface", de Les Brebis du Seigneur de Ferreira de Castro, traduit du portugais par Louise Delapierre, Paris, Pierre Horay, 1950; as páginas do prefácio não estão numeradas.

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