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Embora
se entreteça de algumas páginas de ficção, o livro é uma autobiografia em
que Ferreira de Castro reconstitui sua aventura dramática no barracão do «Paraíso»,
à margem do rio Madeira, na planície amazônica.
Quem
é Alberto, figura principal? Um jovem estudante de Direito que, em Portugal,
conspirava contra o regime republicano e é deportado. Chega a Belém do Pará,
esperando a protecção de um parente que, diante do desemprego geral, o
aconselha a substituir, numa leva de trabalhadores encaminhados àquele seringal,
um cearense fugitivo.
Para
Blaise Cendrars, que visitara o Brasil, «nas páginas prestigiosas de Ferreira
de Castro estão a floresta virgem e o rio monstruoso, pintados com mão de
mestre», confessando-se o escritor francês «sensível à atmosfera humana do
livro e à sua simplicidade que nunca exagera a grandeza patética daquele país».
Como
explicar o êxito do romance? Por ser um retrato autêntico do homem esmagado
pela organização económica do seringal que lhe exige o pagamento de tudo o
que recebe, de transporte, alimento e defesa, sob pena de escravidão. E a
selva, em derredor, luxuriante e impassível, povoada de magias, índios e
feras, como um paredão erguido à sua frente, impedindo-lhe qualquer tentativa
de fuga. Com as suas vozes surdas ou claras na escuridão nocturna, a selva
sufocante que se fecha e, ao amanhecer, se ilumina e trepida com a alegria da
explosão da luz tropical.
Já
trabalhando no armazém de comestíveis do barracão, Alberto auxilia a fuga de
cinco caboclos nordestinos que, logo depois, capturados, desfilam, de volta,
como mm velho friso de condenados», os braços pendendo frouxamente pelo corpo.
Quem
lavra a sentença punidora é o chefe Juca. Amarrados a um tronco e fechados à
chave, durante a noite, no barracão, apanham de peixe-boi, ficando sem comer
por oito dias.
Aparece,
então, o velho negro Tiago, antigo escravo, que, aí, se arrasta como um inútil
trapo humano e incendeia o barracão onde dorme o chefe Juca. Ele confessa o
delito e pede a todos que o mandem para a cadeia de Humaitá, gritando que ainda
tem, nas costas, o chicote do feitor, no Maranhão. Assim, resume o seu
protesto: «—Negro é livre! O homem é livre!»
(Conferêneia realizada em 25 de Maio de 1966 no Liceu Literário Português, do Rio de Janeiro, por iniciativa da Academia Luso-Brasileira de Letras, e na Casa-Museu de João de Deus, em Lisboa, a 18 de Maio de 1967.) Obras de Ferreira de Castro, vol. I. Porto: Lello & Irmão, Editores, 1977, pp. 1215-6.
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