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PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO BRASILEIRA
Romancista,
professor catedrático e antigo presidente da Academia Brasileira
de Letras.
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Este escritor português escreve um livro brasileiro. A Selva é a floresta amazónica, que os brasileiros ignoram e, mesmo os que a viram, dentro dela, Euclides da Cunha ou Humberto de Campos, lhe passaram ao largo do espírito, apenas guardando impressões, imagens, epítetos, para fortuitas evocações. Não há um debuxo, uma pintura, vasta e poderosa tela que a tenha riscado, colorido, sombreado, para a nossa evocação distante, de leitores e admiradores, como nesse filme ideal, esse romance vivido e vivo de Ferreira de Castro.
Ê que, antes de autor, foi personagem, e viveu seu livro, antes de escrevê-lo: por isso nele há tanto daquele trágico quotidiano dos russos: Ferreira de Castro é um Gorki transplantado na América, continente vazio e selvagem ainda, onde os mesmos imigrantes, há quatro séculos, ensaiam sempre o drama gigantesco da Terra e do Homem, pobre homem devorado, porque a decifração imensa da posse comportará mais séculos e mais milhões de homens... uma ambição fugaz levou-os, a alguns, ao recesso da mata e como a ambição murchou à realidade negadora, já não haverá mais homens tão cedo a se aventurarem no desertão, devassadores do mistério...
Felizmente houve um Ferreira de Castro, que escapou à morte, à pobre prosperidade de seringueiro ou de regatão, pecunioso, e, então, esquecido. Felizmente, sofreu da terra rude, das gentes grossas, de seu sonho de moço e de sua revolta de intelectual, e, autodidacta, tirou de si, de sua sofrida experiência, essa obra-prima, a epopeia da floresta amazónica, A Selva.
Este objectivo, é o aspecto «brasileiro» do seu livro... um fresco colossal da terra, ainda por séculos assim... Uma sinfonia discordante da gente, das alimárias, da floresta, das águas, assim até o Juízo Final da Civilização... Mas há o aspecto lusitano, ou universal, que é subjectivo... O testemunho. O êxodo, a imigração da raça, da família, da infância, que se recusa à esperança e impele os filhos para o sonho errante, o lento pesadelo infindo da nostalgia, a inconsolável tristeza das outras terras, outras gentes, vazios continentes incomunicáveis... Portugal é por isso, tristeza. A tristeza companheira do nomadismo. Tristeza que encheu o mundo, objectivamente, os optimismos da revelação, do aproveitamento, da civilização. África, Ásia, América, Oceânia... mundos revelados e, ás vezes, aproveitados por outrem. E filha da nostalgia e do esforço português, essa imensa poesia de acção e de decepção, de todo o sofrimento e todo o idealismo, que vem de Os Lusíadas à A Selva.
Obras
de Ferreira de Castro, vol. I. Porto: Lello & Irmão, Editores,
1977, pp. 542-3.
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