Prefácio-Blaise Cendrars 

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PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO FRANCESA

por Blaise Cendrars 

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Foi meu amigo Paulo Prado, o eminente paulista autor do Retrato do Brasil, dessa síntese singular de história e psicologia, que chamou primeiro minha atenção para A Selva, documento extraordinariamente verdadeiro sobre a Amazónia, que devemos ao grande romancista português Ferreira de Castro.

Em 1930, parece-me, depois da minha primeira viagem ao Brasil, quer dizer, há uma dúzia de anos, pensei de acordo com Paulo Prado e outros amigos, na possibilidade de traduzir para o francês um livro brasileiro sobre a Amazónia. Mas não consegui escolher entre os livros que submeteram à minha leitura.

Pois entre os romancistas brasileiros que, conhecendo bem a Amazónia, sabiam evocar o esplendor ou os mistérios da floresta virgem, os autores do século xix pintaram quadros magníficos e grandiosos da natureza tropical, à maneira de Alexander von Humboldt ou de Chateaubriand: os autores do século xx, mais realistas, na aparência, mas sob a influência de Pierre Benoit, dedicaram suas obras às aventuras verdadeiras ou imaginárias, que são possíveis na floresta, entre tribos estranhas, mais ou menos lendárias, que povoam aquele mundo perdido. Estes e aqueles me decepcionaram; pois parecem ignorar ou querer passar sob silêncio, por mais incrível que seja, a vida que hoje se leva nas florestas inundadas, no sertão, na «jungle» inextricável.

Enfim, encontrei em Ferreira de Castro um autor que sabe evocar como ninguém as belezas e os horrores da Amazónia, descrevendo a natureza tropical, percebendo as extravagâncias que produz esse clima de água e fogo; mas que também fala dos homens que habitam aquela terra, que vivem, lutam, sofrem nas clareiras da floresta virgem: os silvícolas, os primitivos, os «caboclos», os camponeses, os trabalhadores rurais, os colonos, os plantadores, os comerciantes, e também os «transplantados», os emigrantes, e entre eles um civilizado como o próprio Ferreira de Castro que foi para a floresta, mas não por curiosidade ou para escrever um livro, mas para ganhar ali seu pão como o mais humilde dos emigrantes portugueses; e que precisava escrever, muitos anos mais tarde, seu famoso romance sobre a Amazónia, para libertar-se de uma recordação angustiosa.

Embora só conhecendo como turista aquelas regiões alucinantes, posso afirmar que nas páginas prestigiosas de Ferreira de Castro estão a floresta virgem e o rio monstruoso, pintados com mão de mestre; mas confesso que fui mais sensível à atmosfera humana do livro e à sua simplicidade que nunca exagera a grandeza patética daquele país.

O motivo do imenso sucesso de A Selva, hoje já traduzido para catorze línguas, foi, ao meu ver, sua humanidade profunda, sua veracidade, a autenticidade dos pormenores, as observações agudas e nunca enfeitadas sobre a vida dos pobres seringueiros, a ausência completa de comentários, de modo que o leitor só fica impressionado pelos factos; e a fidelidade escrupulosa na transcrição das expressões: assim os diálogos entre essa gente simples e primitiva, perdida nas florestas «no fim do mundo» tocam o coração; são entendidos e compreendidos.


 Obras de Ferreira de Castro, vol. I. Porto: Lello & Irmão, Editores, 1977, pp. 544-5.