![]()
(
Romancista, ensaísta e geógrafo austríaco)
![]()
Falo
com conhecimento. Contornei a selva amazónica, de passeio. O que está por detrás
dessa verde cortina, isso nunca o turista o vê. A esse respeito, apenas pode
adivinhar e pouco. Até o investigador que acompanha uma expedição perfeita,
com guias, portadores de bagagens, veículos de carga, canoas, e penetra no
Inferno Verde, traz vulgarmente, apenas
notícias pessoais, nada agradáveis: lebres, onças, tempestades, mosquitos...
Pode até ter visto meia dúzia de nativos nus! As pessoas que vivem, de
verdade, na desconhecida selva sul-americana, não falam, não contam. São inarticuladas.
São índios, negros, mestiços, tristes e
primitivos nativos, aos quais não é dada a palavra. E, no entanto, há na
selva muita coisa que merece ser contada.
Na
minha volta pelo interior do Amazonas, caiu-me nas mãos, por acaso, um livro
português que finalmente quebra o silêncio sobre a selva verde. E tudo,
afinal, é possível, até aparecer um dia, dentro da grande massa de
seringueiros, um poeta, um romancista, um investigador. O autor do livro
chama-se José Maria Ferreira de Castro, é bastante novo e nascido em Portugal.
Viveu a sua infância numa linda aldeia no Vale do Vouga, filho de gente pobre.
Seu pai morreu cedo. Quando apenas contava 12 anos, embarcou num navio de
emigrantes para o Brasil. Do Pará mandaram-no, ainda criança, para o Rio
Madeira. O que descreve, com tanta realidade, no seu romance A
Selva, tudo isso ele viveu. E aconteceu o
que parecia pouco provável, quase impossível: dum momento para o outro,
conseguiu libertar-se do Inferno Verde. Tornou-se
escritor, tomou-se o mais moderno e
maior
poeta-romancista do Portugal de hoje. Muitos estudaram na clássica Coimbra e
escrevem lindas palavras; este é um autodidacta.
Emigrantes,
um grande romance onde descreve a vida dos
portugueses que emigram para a América, foi considerado uma obra-prima e
traduzido mais tarde em espanhol, italiano e russo. Veio depois o grande livro A
Selva. Neste
romance, Ferreira de Castro não descreve somente o inferno dos pesquisadores da
borracha de uma forma para sempre inolvidável, mas também a majestosa natureza
da floresta virgem, em toda a sua trágica beleza. Na sua obra, a selva do
Amazonas foi vista, pela primeira vez, por um homem que não viajou, mas que
viveu dentro dela própria. Este romance de Ferreira de Castro tanto me prendeu
que eu desejei traduzi-to imediatamente para alemão.
(Num
dos primeiros artigos que publiquei sobre as minhas viagens ao Amazonas,
predisse, por simples intuição, que o inferno dos seringueiros havia de
encontrar, um dia, o seu escritor. Ele já existia, eu é que o não conhecia).
O
romance, como forma literária, nesse pequeno país que é Portugal, produziu no
último século um autor de importância europeia: Eça de Queirós, que o público
alemão ainda não conhece bastante e nunca compreendeu bem.
Em
Ferreira de Castro, o Portugal de hoje apresenta um autor verdadeiramente
moderno, que, com a sua pena de investigador da vida e de poeta, nos descreve um
mundo insuportável e a sua ânsia infinita dum mundo melhor.
Da
nova geração de escritores alemães, o único que se pode comparar a Ferreira
de Castro é B. H. Traven. O escritor português, porém, apesar de moderno e
revolucionário, fica sempre português. Quer isto dizer que conserva sempre, até
quando descreve as cenas mais brutais, uma graça delicada, uma elegância de
palavra e de forma que tudo consegue dizer sem melindrar.
Ferreira
de Castro é ainda absolutamente desconhecido entre nós; mas, com este livro na
mão, pergunto se ele deve continuar desconhecido.
Obras de Ferreira de Castro, vol.
I. Porto: Lello & Irmão, Editores, 1977, pp. 540-1.
![]()