Primeiro Grande Estudo

Back Home Up Next  

horizontal rule

O PRIMEIRO GRANDE ESTUDO SOBRE «A SELVA»

por Humberto de Campos

O primeiro estudo crítico de larga amplitude e profundidade sobre «A Selva» foi publicado pelo escritor brasileiro Humberto de Campos. Desse trabalho, que ocupa cerca de quarenta páginas, reproduzem-se apenas, devido à sua extensão, as quatro primeiras.

horizontal rule

A Amazónia era, até há pouco, o mais bizarro pedaço do Brasil.
A civilização embrionária que ali se processava, oferecia a cada instante, a olhos que soubessem ver, as cenas imprevistas e dramas os mais assombrosos. Um grupo de escritores russos trazidos das vizinhanças da Ásia, acostumados aos espectáculos humanos da antiga Sibéria e às surpresas panmórficas dos gelos do norte, teria arrancado do seu ventre toda uma literatura de espantos. Gemiam naquele Inferno todas as dores e rugiam naquele cenário, surdamente, todas as tragédias. A selva é, porém, para os gritos, o que é o mata-borrão para a tinta: bebe-os, apaga-os, absorve-os, fazendo desaparecer na porosidade do seu silêncio as vozes de socorro dos condenados. A luta do Homem contra a Natureza foi, ali, o combate de Siegfredo contra o Dragão. Apenas, naqueles prélios, era o Dragão, sempre, invariavelmente, o vencedor, devorando milhares de cavaleiros da Fortuna que se atiravam contra ele, magníficos de heroísmo, épicos de bravura, sublimes de resignação, sem escudo, sem espada e sem couraça. No quadrado geográfico formado pela linha equatorial e 100 de latitude Sul e que se estende, longitudinalmente, da margem direita do Tocantins à fronteira peruana, escreveu-se, realmente, durante meio século, com
sangue humano e reticências de balas de rifle, uma das maiores epo­peias da conquista americana. Durante cinquenta anos, a peito desco­berto, o homem bateu-se, sozinho, contra todas as forças da selva revoltada.

Esses heróis não encontraram todavia o seu Homero, o seu histo­riador, ou sequer, o seu romancista. Assunto enorme, ignoraram-no, ou não o compreenderam em toda a sua extensão, os nossos escritores. Que temos nós, efectivamente, nos domínios literários sobre a ilíada amazónica? O bastante, apenas, para não dizermos que não temos nada: as 130 páginas de impressões de Euclides da Cunha, em À Mar­gem da História; os contos de O Inferno Verde, do Sr. Alberto Rangel; O Paraoara, do Sr. Rodolfo Teófllo; Os Deserdados, de Carlos de Vas­concelos; Na Planície Amazónica, do Sr. Raimundo Morais; A Ama­zónia Misteriosa e A Amazónia que eu Vi, do Sr. Gastão Cruls, e trabalhos esparsos de escritores regionais, a que podem ser adicio­nados alguns poemetos em que fixei as impressões da minha vida selvagem. Nenhum de nós escreveu, porém, a obra reclamada e neces­sária. O que interessa, na Amazónia, à literatura, é o homem, e, entre estes, o seringueiro e a sua tragédia. Para conhecer um e outra fazia-se mister viver no seringai, estudar-lhe o mecanismo, entrar, enfim, na peça como personagem e não apenas como espectador. É qual, dos escritores citados, entrou nela com esse carácter? Euclides foi o visi­tante oficial, o chefe de uma comissão de limites que atravessou a região sem nela deter-se e que, a não ser a natureza, que se não constrange diante do homem, mais adivinhou do que viu. Carlos de Vasconcelos e o Sr. Alberto Rangel eram engenheiros e medindo terras, demarcando latifúndios cujas fronteiras eram hipóteses, penetraram nos seringais; mas não fizeram parte deles: viram a máquina imensa montada, sem conhecerem, contudo, o segredo do seu funcionamento. O Sr. Rodolfo Teófilo escreveu por informação e o Sr. Gastão Cruls, a princípio, por imaginação e, depois, como desenhista de um palco na ausência dos actores. Quanto ao Sr. Raimundo Morais, antigo comandante de navios, este é mais o técnico dos «caminhos que andam», enamorado da terra verde e dos rios largos, do que o analista sereno da vida humana, tal como ela se desenrola, rica de espantos, no seio da floresta, além da margem daqueles rios volumosos. Gerente de seringais, tendo ainda hoje nas mãos grossas o vestígio dos remos que impelia sozinho a igarité nos escuros igarapés solitários, eu tenho, talvez, autoridade para estas reflexões. De lá não trouxe, é certo, senão uma dezena de sonetos descritivos ou folclóricos e o poemeto A Morte do Seringueiro, que é, todavia, já um depoimento e uma pequena amostra da literatura que eu devia ter feito. A circunstância de me haverem faltado a arte e o engenho para fixar os espectáculos de que fui testemunha, não impede, no entanto, que me considere apto a julgar as obras que con­densaram ou pretenderam condensar aquilo que eu vi.

Foi assim, com essa autoridade, que li A Selva, romance amazónico do escritor português Sr. Ferreira de Castro; e é com ela ainda que, chegado ao fim do livro, posso exclamar: A Amazónia está aqui!

Tendo percorrido o Brasil, tentando a fortuna quando o espírito literário lhe estava ainda em formação, pôde o moço lusitano guardar na retina os principais aspectos da vida brasileira, tal como ela se processa nos seus principais centros de actividade, desconhecidos daqueles que não vêem senão a superfície da nossa civilização. À semelhança de Melville, que foi pescador antes de se tornar romancista, e de Jack London, que desceu ao fundo das minas do Alasca antes de explorá-las para a literatura, ele viveu um pouco, se não intensamente, a vida dos seus personagens, daí, o flagrante de certas cenas e de certos tipos do nosso ignorado subsolo social, os quais só poderiam ser des­critos com tanta precisão por um espírito que lhes tivesse conhecido a intimidade. Dai, outrossim, termos hoje, até certo ponto, no Sr. Fer­reira de Castro, isto è, num escritor estrangeiro, o mais perfeito romancista das nossas tragédias obscuras, e o revelador literário do caudal de sofrimento que rola, soturno e misterioso, por baixo da camada de ouro fluido, pela qual se afere a nossa prosperidade económica.

II

Quem se habituou a ver a Amazónia com os óculos de ouro dos nossos escritores ou com a lente dos naturalistas estrangeiros que por lá andaram a classificar insectos e plantas, estranhará, sem dúvida, este livro do Sr. Ferreira de Castro. Ele não foge à confissão do espanto que lhe causou a terra, fervilhante de seres fantásticos ou com a sua vegetação evocadora da infância do mundo; mas, em vez de pousar os olhos exclusivamente nas frondes largas, ou baixá-los sobre os pântanos em que se elabora a vida dos infinitamente pequenos, fixou-os especialmente no homem, hóspede incómodo e heróico daquelas paragens. Os outros falaram da natureza, dos seus prodígios e mistérios: ele fala do animal temerário que pretende subjugá-la e que, vencido na sua luta com a terra virgem, rola, morto, mas de bruços, mordendo-a ainda, e abraçado com ela.

 ...............................................................................

Obras de Ferreira de Castro, vol. I. Porto: Lello & Irmão, Editores, 1977, pp. 537-9.

horizontal rule

Back Home Up Next