Visão do Seringal Paraíso

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VISÃO DO SERINGAL PARAISO

por Matias Arrudão

(Magistrado e publicista brasileiro) 

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Árvores imensas entrelaçam as copas na luta pelo sol de cada dia. O chão desaparece. Ocultam-se os igarapés e os igapós. Na exuberância de sua força, a floresta equatorial é pior do que o próprio oceano. Vem-me à mente uma frase de De Pinedo: – «Ser forçado a descer naquele horror, mesmo que se aterre incólume, é ficar onde se pousou e morrer sepultado na selva...»

Torrentoso, majestoso e selvagem, o Madeira corrói e solapa as próprias paredes. Há trechos extensos em que aparece a carne viva da terra, arrancada aos pedaços pela violência do caudal. Troncos pujantes, árvores inteiras, às vezes com a galharia verde enfolhada, rolam arrastados pela correnteza. É uma avalanche. De Porto Velho a Manaus os gaiolas gastam três a quatro dias, mas não regressam sendo em oito. Há pontos em que os barcos soltam longas correntes para que elas, deslizando pelo fundo do rio, retardem a marcha vertiginosa determinada pelas águas.

Fazemos um círculo sobre Humaitá e nos despedimos da cidadezinha com um balanço de asas. Só os açaizeiros, agrupados sobre a barranca prestes a ser dilacerada, respondem a esse longo adeus mecânico.

A selva outra vez se estende por ambos as margem.

Quem vive no Sul, quem se habituou à paisagem desértica de São Paulo, onde as matas desapareceram, deixando capões quadriculados entre plantações de café e de algodão, não compreende a existência de tamanhas reservas florestais. Em compensação, também aqui não há quem creia no reflorestamento necessário, nem quem acredite nos bosques paulistas de eucaliptos, de mudas importadas da Austrália, 
perfilados, hirtos, despersonalizados, arrumadinhos como um batalhão de soldados de chumbo.

Confiro a carta de bordo. Se Humaitá ficar aqui, o paraíso fica ali, logo além, do outro lado daquela curva do rio. Lá adiante está o Lago do Rei...

Cortamos agora sobre o seringal, aquele mesmo em que sofreu Ferreiro de Castro, que foi o palco do maior livro que até hoje se escreveu sobre a vida na selva amazónica.

Embora não aviste senão a floresta, não há duvida de que percorro a região onde tantos homens tiveram seu drama. O drama dos seringueiros em saldo, de Alberto, Firmino, Feliciano, Agostinho, Procópio, Alexandrino, seu Guerreiro e Dona Yáyá. O drama dos únicos homens na Amazónia que não morreram no anonimato.

Passeio os olhos sobre a floresta. A sugestão do livro fascinante me domina. Somente a mata não tem reacção. Nem uma crispação, nem um só balanço da galharia, ainda que determinado por uma aragem passageira.

A mim, porém, já agora nada mais me escapa.

Ali está a sapotilheira, carregada até hoje de ninhos de japins. As três palmeiras, enraizados no cimo da ribanceira, estão agora reduzidas a duas. O porto, onde ficavam acorrentadas as canoas, está verde-esmeralda, recoberto pela canarana que avança balouça e sobre as águas mansas do igarapé.

Os olhos do coração vêem tudo. Vejo as «estradas», as árvores golpeadas pelo machadinho, único diminutivo usado na grande floresta. Lá adiante, tortuoso como a consciência de uma testemunha falsa, o trilho de Todos-os-Santos...

O S-43 abala a selva com o ronco poderoso dos seus motores. Mas as velhas árvores, que são as mesmas sob as quais chorou o escritor, não se movem, não se alteram, não se coram. Testemunhas mudas da grande tragédia, elas estão à espera de outra tragédia, que será tão grande ou maior ainda do que a primeira. Nem têm orgulho de haver constituído o cenário de uma epopeia; nem sabem, as velhos árvores, que no mundo inteiro, nas dezoito línguas em que A Selva foi traduzido, são elas conhecidas, uma a uma, como eu conheço e reconheço aquela sapopema, todinha furada de cavernas, dentro da qual os índios se, esconderam para flechar Feliciano.

Vou pensando, deduzindo, enquanto em baixo, a cem metros, a mata foge em louca disparada. Dentro dela desfilam as seringueiras, cada uma com seu romance, a sua história triste de fazer chorar.

De repente, numa enseada, casinholas redondas, construídas de palha, destroçadas pelo abandono e as intempéries, passam no relance de uma lembrança. O nome da nação Parintintim me acode no mesmo instante. Aqui moraram índios que atormentavam os seringueiros. Aquele rancho desconchavado, que uma árvore desconhecida vai levantando do chão, como um esqueleto branco de casa, talvez tenha sido daquele tuxaua de capacete de penas que caiu varado por uma bala do rifle de Manduca.

Volto à realidade. O S-43 não tem considerações. Nunca leu um livro, nunca teve um sentimento bom.

Contemplo outra vez, já agora torcendo o pescoço, o gigantesco cenário. Ficou tudo para trás.

Uma nuvem muito branca se coloca entre o avião e o seringal, como se porventura pretendesse esconder-me a mancha vermelha que subitamente tingiu a floresta. Se foi artifício, foi inútil artifício da natureza. Porque agora a memória dos companheiros de Alberto ensanguentou a paisagem.

Tantos e tantos anos decorridos e até hoje não nos libertamos dos coronéis de barranco. Juca Tristão, solto pela Amazónia afora, devorou outra vez os infelizes soldados da última batalha da borracha.

O drama do «paraíso» ainda se repete, quase todos os dias, na terra onde os homens não rezam. Não rezam – escreveu Euclides da Cunha – porque os grandes olhos de Deus não podem descer até aqueles brejais.

(In O Estado de S. Paulo.)

Obras de Ferreira de Castro, vol. I. Porto: Lello & Irmão, Editores, 1977, pp. 550-2.

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