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(Magistrado
e publicista brasileiro)
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Árvores
imensas entrelaçam as copas na luta pelo sol de cada dia. O chão desaparece.
Ocultam-se os igarapés e os igapós. Na exuberância de sua força, a floresta
equatorial é pior do que o próprio oceano. Vem-me à mente uma frase de De
Pinedo: – «Ser forçado a descer naquele horror, mesmo que se aterre incólume,
é ficar onde se pousou e morrer sepultado na selva...»
Torrentoso,
majestoso e selvagem, o Madeira corrói e solapa as próprias paredes. Há
trechos extensos em que aparece a carne viva da terra, arrancada aos pedaços
pela violência do caudal. Troncos pujantes, árvores inteiras, às vezes com a
galharia verde enfolhada, rolam arrastados pela correnteza. É uma avalanche. De
Porto Velho a Manaus os gaiolas gastam três a quatro dias, mas não regressam
sendo em oito. Há pontos em que os barcos soltam longas correntes para que
elas, deslizando pelo fundo do rio, retardem a marcha vertiginosa determinada
pelas águas.
Fazemos
um círculo sobre Humaitá e nos despedimos da cidadezinha com um balanço de
asas. Só os açaizeiros, agrupados sobre a barranca prestes a ser dilacerada,
respondem a esse longo adeus mecânico.
A
selva outra vez se estende por ambos as margem.
Quem
vive no Sul, quem se habituou à paisagem desértica de São Paulo, onde as
matas desapareceram, deixando capões quadriculados entre plantações de café
e de algodão, não compreende a existência de tamanhas reservas florestais. Em
compensação, também aqui não há quem creia no reflorestamento necessário,
nem quem acredite nos bosques paulistas de eucaliptos, de mudas importadas da
Austrália,
perfilados, hirtos,
despersonalizados, arrumadinhos como um batalhão de soldados de chumbo.
Confiro
a carta de bordo. Se Humaitá ficar aqui, o paraíso fica ali, logo além, do
outro lado daquela curva do rio. Lá adiante está o Lago do Rei...
Cortamos
agora sobre o seringal, aquele mesmo em que sofreu Ferreiro de Castro, que foi o
palco do maior livro que até hoje se escreveu sobre a vida na selva amazónica.
Embora
não aviste senão a floresta, não há duvida de que percorro a região onde
tantos homens tiveram seu drama. O drama dos seringueiros em saldo, de Alberto,
Firmino, Feliciano, Agostinho, Procópio, Alexandrino, seu Guerreiro e Dona Yáyá.
O drama dos únicos homens na Amazónia que não morreram no anonimato.
Passeio
os olhos sobre a floresta. A sugestão do livro fascinante me domina. Somente a
mata não tem reacção. Nem uma crispação, nem um só balanço da galharia,
ainda que determinado por uma aragem passageira.
A
mim, porém, já agora nada mais me escapa.
Ali
está a sapotilheira, carregada até hoje de ninhos de japins. As três
palmeiras, enraizados no cimo da ribanceira, estão agora reduzidas a duas. O
porto, onde ficavam acorrentadas as canoas, está verde-esmeralda, recoberto
pela canarana que avança balouça e sobre as águas mansas do igarapé.
Os
olhos do coração vêem tudo. Vejo as «estradas», as árvores golpeadas pelo
machadinho, único diminutivo usado na grande floresta. Lá adiante, tortuoso
como a consciência de uma testemunha falsa, o trilho de Todos-os-Santos...
O
S-43
abala a selva com o ronco poderoso dos seus motores. Mas as velhas árvores, que
são as mesmas sob as quais chorou o escritor, não se movem, não se alteram, não
se coram. Testemunhas mudas da grande tragédia, elas estão à espera de outra
tragédia, que será tão grande ou maior ainda do que a primeira. Nem têm
orgulho de haver constituído o cenário de uma epopeia; nem sabem, as velhos árvores,
que no mundo inteiro, nas dezoito línguas em que A
Selva foi traduzido, são elas conhecidas,
uma a uma, como eu conheço e reconheço aquela sapopema, todinha furada de
cavernas, dentro da qual os índios se, esconderam para flechar Feliciano.
Vou
pensando, deduzindo, enquanto em baixo, a cem metros, a mata foge em louca
disparada. Dentro dela desfilam as seringueiras, cada uma com seu romance, a sua
história triste de fazer chorar.
De
repente, numa enseada, casinholas redondas, construídas de palha, destroçadas
pelo abandono e as intempéries, passam no relance de uma lembrança. O nome da
nação Parintintim me acode no mesmo instante. Aqui moraram índios que
atormentavam os seringueiros. Aquele rancho desconchavado, que uma árvore
desconhecida vai levantando do chão, como um esqueleto branco de casa, talvez
tenha sido daquele tuxaua de capacete de penas que caiu varado por uma bala do
rifle de Manduca.
Volto
à realidade. O S-43 não tem considerações. Nunca leu um livro, nunca teve um
sentimento bom.
Contemplo
outra vez, já agora torcendo o pescoço, o gigantesco cenário. Ficou tudo para
trás.
Uma
nuvem muito branca se coloca entre o avião e o seringal, como se porventura
pretendesse esconder-me a mancha vermelha que subitamente tingiu a floresta. Se
foi artifício, foi inútil artifício da natureza. Porque agora a memória dos
companheiros de Alberto ensanguentou a paisagem.
Tantos
e tantos anos decorridos e até hoje não nos libertamos dos coronéis de
barranco. Juca Tristão, solto pela Amazónia afora, devorou outra vez os
infelizes soldados da última batalha da borracha.
O
drama do «paraíso» ainda se repete, quase todos os dias, na terra onde os
homens não rezam. Não rezam – escreveu Euclides da Cunha – porque os
grandes olhos de Deus não podem descer até aqueles brejais.
(In O Estado de S. Paulo.)
Obras de Ferreira de Castro, vol. I. Porto: Lello & Irmão, Editores, 1977, pp. 550-2.
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