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Extracto de um longo artigo do crítico italiano Alberto Viviani publicado quando do aparecimento da tradução de A Selva no seu país.
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O
que há de novo, de formidável e de original no romance de Ferreira de Castro
é o ambiente. A descrição da Amazónia perturba e maravilha. A evocação da selva
verde-negra com os seus sortilégios obscuros, os seus terrores extra-humanos —
com aquela exuberância de vida que determina o delírio da Natureza — esmaga
e anula a natureza humana. Ali, o homem é menos do que um verme, face à
majestade da terra exuberante de selva e de miasmas de morte. O poema da
floresta amazónica é traçado por este jovem escritor com verdadeira mão de
mestre: segurança «a visão interior, certeza na vivissecção.
Escreveu este romance como poderia tê-lo feito um explorador dos trópicos que
fosse, ao mesmo tempo, um artista sensível. Nunca a floresta teve até hoje
narrador tão apaixonado pela sua trágica beleza.
Ferreira
de Castro é, desde já, senhor duma orquestração verbal rica em acordes
novos, iluminada por estranhos ritmos com os quais lhe é possível reconstituir
para nós, profanos, a linguagem da floresta. Na verdade, era justo que tal
acontecesse: à absoluta originalidade da intriga devia corresponder a mesma
originalidade de linguagem.
Encontram-se,
pois, no romance, as qualidades mais salientes deste jovem escritor português:
já falei dele noutras ocasiões ao público italiano e voltarei a fazê-lo da
melhor vontade e com todo o entusiasmo sempre que a oportunidade se me
apresente, visto que o considero como o mais puro e
genuíno representante da literatura narrativa lusitana. Ferreira de Castro
é um escritor que constrói os seus romances com uma perícia que se diria
quase consumada na profissão, mas que é na realidade um turbilhão de
espontaneidade. Estamos na presença de um romancista de raça; dum psicólogo
agudo e novo que não se detém a considerar as suas personagens nas proporções
em que o fizeram tantos escritores do passado e do presente com base numa já
encanecida fraseologia maneirista; pelo contrário, consegue caracterizá-las,
estudá-las, analisá-las do seu ponto de vista peculiar e original, chegando
sempre a conclusões imprevisíveis e extraordinárias. Segundo um escritor
citado por Ferreira de Castro, numa das epígrafes ao seu romance (Euclides da
Cunha), a Amazónia é a última página do Génesis ainda por escrever. Assim
aparece verdadeiramente neste belo romance.
Os
homens perdidos nas intricadas veredas da imensa floresta assemelham-se a náufragos
miseráveis dum naufrágio num mar desconhecido e sem nome; um mar que as naves
conduzidas pelo homem devem ainda conhecer, onde parece que tudo falta: até a
Providência divina. A floresta, como já foi dito ao princípio, é a autêntica
protagonista do romance de Ferreira de Castro; tudo o
mais não passa do complemento necessário; as figuras dolorosas das
personagens, os acontecimentos que marcam a vida dos homens, tudo está
subordinado à vastidão primitiva da selva que hostiliza e aniquila.
A
obra de Ferreira de Castro torna-se, deste modo, por consequência lógica,
essencialmente descritiva, de grande e especial poderio lírico, escrita numa
prosa maravilhosa pela ressonância e pela limpidez, onde se iluminam os fenómenos
sociais da vida que tenta pelo esforço, pelo sofrimento, pela obstinação,
implantar-se à margem da floresta, bárbara e afadigadamente.
A
Selva é seguramente a obra mais forte è mais bela que este, jovem escritor
até hoje produziu: e é principalmente pela sua juventude que interessa
segui-lo no seu trabalho criador, que nos reserva, necessariamente, surpresas
que me permito prognosticar extraordinárias.
(De Il Popolo Toscano, de Florença)
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